Bernarda Alba em versão cigana (Jornal El Correo – Bilbau)


Courrier Internacional (Ago)
Bernarda Alba em versão cigana (Jornal El Correo – Bilbau)
A experiência é única em Espanha: recrutar ciganas analfabetas de um bairro de lata sevilhano para declamar Garcia Lorca. Uma aventura bem sucedida.
Oito mulheres ciganas do bairro de barracas mais antigo da Europa, em Sevilha, graças a um ateliê do TNT – Centro Internacional de Investigação Teatral, entraram em contacto pela primeira vez com a obra de Frederico Garcia Lorca, “esse senhor tão bom e que tanto fez por nós”. Assim começaram um projecto que envolve uma experiência de integração social única em Espanha e cujo resultado artístico mereceu rasgados elogios da crítica e de Laura Garcia Lorca, sobrinha do poeta e presidente da fundação homónima.
A encenadora, Pepe Gamboa diz que “algumas não sabem ler nem escrever e é óbvio que não têm qualquer espécie de formação teatral, mas compensaram estas falhas com um entusiasmo invejável”. Graças à sua perseverança e esforço conseguiram que um tão singular trabalho esteja em digressão por toda a Espanha, com salas cheias. Segundo Rocío Montero, uma das actrizes, “agora são os maridos que ficam em casa a tomar conta dos filhos enquanto nós estamos a trabalhar, ao contrário do que aconteceu toda a vida”.
Receberam prémios e reconhecimento; a ministra da Igualdade fez questão de as cumprimentar pessoalmente. Gamboa contudo explica que “continuam a ser marginalizadas. Há sítios onde não as deixam entrar. Muitas vezes tenho de ir com elas para que possam apanhar um táxi”. “Chegou ao extremo de dois seguranças não as quererem deixar entrar numa festa em sua honra”.
Rocío afirma que não aspira a ter uma carreira de actriz profissional, mas antes a ter uma casa “em que não entrem nem os ratos nem a chuva”, um lugar onde ela, o marido e os filhos possam viver com dignidade.