Gente que através da mobilidade chegou até nós, os ciganos são gente que caminha mas, não ao nosso ritmo, porque, ideossincraticamente, nos passa ao lado. Nós constatamo-los; não os sentimos.

EDITORIAL
DA DESCONFIANÇA À CONFIANÇA
Gente que através da mobilidade chegou até nós, os ciganos são gente que caminha mas, não ao nosso ritmo, porque, ideossincraticamente, nos passa ao lado. Nós constatamo-los; não os sentimos.
Nós constatamo-los porque têm usos e costumes diferentes, porque se desviam dos padrões que são os nossos, porque se nos oferecem como outros que se deslocalizam, porque parecem alimentar guetos…
Não os sentimos, porque apenas sentimos os estímulos que chocam porque vêm de outros que são diferentes. Até podem parecer nossa tarefa; não chegam a ser nosso problema.
Gente que foi da mobilidade, os ciganos são gente que caminha, com forte identidade étnica de comportamentos atávicos, que questiona o nosso ritmo e provoca a nossa solidariedade.
Mas a solidariedade (de soli+dare=dar ao que está só) tem de sofrer, pastoralmente, uma conversão evangélica. Não se tratará de pôr, de forma paternal, da nossa luz na sua escuridão mas de facilitar, de forma participada, a luz de Cristo no seu e nosso caminho.
Ora Cristo veio para estar connosco até ao fim dos caminhos e dos ritmos, para que todos tenham a vida…, para ser caminho, verdade e vida (Jo 14, ).
A vida é caminho/testemunho e, por isso, é pão que se partilha. Mas partilhar é mais que dar.
A vida é, também, verdade e, por isso, é Evangelho que se anuncia. Mas anunciar o Evangelho é também traduzi-lo ao ritmo de quem caminha.
A vida é encontro/comunhão e, por isso, é certo que não se celebra à margem do que se vive.
Gente com a mobilidade nas suas raízes, os ciganos são gente que caminha e é nosso problema e nossa responsabilidade.
Teremos que assumir a mudança pastoral que nos permita sentir a cultura que foi da mobilidade e partilhar o ritmo; mudar para que eles possam mudar:
– para lá do pão que é assistência e, mesmo, para lá do testemunho que ajuda a iniciar, teremos que nos abrir à Palavra que é a Boa Nova capaz de convencer à adesão que é interior;
– teremos que ter a paciência dinâmica de tentar acertar o passo num caminho em que é preciso fazer a experiência criativa de caminhar, num caminho que se há-de fazer caminhando.
P. Amadeu Dias Ferreira