DE QUE MORREM OS CIGANOS? DE INEXISTÊNCIA…
Nesta tarde de 8 de Junho, diante das ruínas fumegantes onde um rapazinho de 4 anos perdeu a vida, no bairro de lata do “Carrefour Pasteur”, em Lille – diante destas ruínas fumegantes, como diante de todas as barracas calcinadas de bairros ciganos por essa França fora nestes últimos anos – a mesma pergunta saía da boca dos jornalistas e dos munícipes presentes : “Mas qual foi a razão deste drama ?”
Este incêndio fatal terá sido um acidente ? Terá sido criminoso ? A resposta é trágica : foram as duas coisas.
Dadas as condições em que vive a grande maioria dos ciganos em França, eles estão constantemente expostos a um acidente. Como evitar o fogo quando se vive à luz de velas, em casas de cartão, quando se cozinha com botijas de gás junto de paredes miseráveis feitas com portas de armários, quando as pessoas aquecem com lenha várias barracas ao mesmo tempo ? É impossível evitar os riscos e o perigo nestas condições. A culpada é a miséria…
Mas o incêndio de Lille, neste dia 8, também foi criminoso. O pequeno David morreu por não ter existência própria. Os imigrantes ciganos são ignorados pelos poderes públicos, muitas vezes de modo premeditado. Fazem como se eles lá não estivessem, como se os bairros de lata fossem bairros fantasmas. Ou então expulsam-nos dos cantos onde vão sobrevivendo, com a esperança de que desaparecerão para sempre. Mas os ciganos vivem em França há anos ! E fazem tenções de ficar, até porque a isso têm direito, se conseguirem arranjar um trabalho e um tecto decentes. Expulsam-nos dum lugar e eles vão para outro, e depois para outro…
Enquanto os poderes públicos não encararem a realidade de frente e não se resolverem a tratar desta questão – complicada e espinhosa, é verdade – , os Ciganos continuarão a ser vítimas e a nossa sociedade em geral também sofrerá com isso.
Experiências tentadas por várias associações, por certas autarquias, pelos vizinhos de certos bairros de lata, em diversas regiões franceses, mostram que é possível fazer alguma coisa. A inexistência não é uma fatalidade.
Bertrand, Nord – Pas de Calais, França
Publicado no dia 9 de junho de 2015 no Boletim on line do Movimento Internacional ATD Quarto Mundo Fórum por um Mundo sem Miséria Pierrelaye – França
www.atd-quartmonde.org
www.mundosemmiseria.org
www.unheard-voices.org
Remetido à Caravana por Ana Côrte-Real Pimenta