Expresso (28 mar)

Minoria étnica: imagens de família cigana que enfrenta nomadismo forçado exposta em galeria nos Estados Unidos

De um lado para outro até Nova Iorque

Entre 2013 e 2014, Maria Helena Silva Cabeças (MH) foi fotografada por Pierre Gonnord nos arredores de Évora. Com ela, os filhos mais pequenos, Joni e Luís. A imagem foi partilhada nas redes sociais e suscitou a discussão sobre as condições de vida das comunidades ciganas. Com MH, tudo o que a define: a carroça, a mula, os filhos. Falta-lhe o domínio da língua portuguesa.

A mulher cigana não sabe ler nem escrever, fica à mercê da interpretação de quem lhe traduz os riscos na folha.

33,5% das famílias ciganas são apoiadas pelo RSI, instrumento utilizado para promover a educação dos mais jovens.

 

MH tem a sua fotografia exposta até 25 de abril na galeria de arte Hasted Kraeutler, em Nova Iorque. A beleza de MH já foi notícia em Portugal e em Inglaterra, é partilhada nas redes sociais mas, aos 37 anos, revela preocupações bem mais urgentes: todos os dias sabe onde acorda, mas nunca sabe onde é que irá dormir. “Tudo parecia destinado para que MH fosse mais um rosto sem nome entre os cerca de quatro mil ciganos nómadas que se julga circularem por Portugal. Mas há cerca de um ano, na estrada entre Estremoz e Évora, MH tropeçou no fotógrafo francês Pierre Gonnord (PG) que a fotografou e aos filhos, bem como aos membros da sua família e aos cavalos e ovelhas. A exposição em Nova Iorque recebeu o título “O sonho vai para além do tempo”. Um comentário num blogue despertou a curiosidade sobre quem eram as pessoas fotografadas por PG. A atriz Alexandra Espiridão que conhecia os Silva Cabeças dos acampamentos ao lado de sua casa, denunciou o quotidiano cigano desta família no blogue “Coletivo Libertário Évora”.

 

MH não tem uma casa, mas tem um telemóvel que serve para marcar encontro no estacionamento de um supermercado, nos arredores de Évora. MH assume “estar ‘farta de não ter uma casinha para proteger as crianças do frio e da chuva’. Sonha com um inverno em que consiga proteger-se, fechar a porta, varrer o chão.” MH tem seis filhos, as raparigas estão na escola. Entretanto, durante o encontro recebeu uma chamada a avisar que a polícia mandou desmantelar o acampamento de cerca de 30 pessoas. Em poucos minutos tudo é colocado na carroça, não vá a GNR chegar. MH mostra uma “carta de admoestação” da Câmara Municipal de Elvas, com o aviso de que se insistir em acampar sem autorização, terá que pagar 200 euros. PG já lhes pagou uma multa. Enquanto procuram novo local para montar a tenda, MH sonha com o dia  de ter “uma casinha para viver com os gaiatos”, onde estarão protegidos do frio e da chuva. MH diz que “a vida é complicada, porque lhes fecharam os poços onde davam de beber aos animais, que a polícia não os deixa permanecer no mesmo acampamento por mais de 72 horas e que ninguém lhes dá trabalho.”

MH “fala de ‘um subsídio’  e de ter perdido ‘o abono do Rogério’”. Quando um filho cai doente, o médico empurra-a “de volta a Évora, porque é ali que está o médico de família. Ou seja, é como se dissessem que não podem ficar nem podem partir.” As famílias do acampamento “sabem sempre ondem acordam, nunca onde irão dormir”.