DIA NACIONAL DO CIGANO: CARTA ENVIADA PELO SECRETARIADO DE LISBOA AOS PÁROCOS
A Drª Fernanda Reis, Presidente do Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos (SDL), enviou, como habitualmente, uma carta aos Párocos do Patriarcado de Lisboa, por ocasião do Dia Nacional do Cigano (24 de Junho).
Reverendo Pároco
Aproximando-se o Dia Nacional do Cigano, que terá lugar em 24 do corrente mês, pensei oportuno contactá-lo, tendo como base as reflexões feitas no Encontro Anual do Comité Católico Internacional para os Ciganos que, no corrente ano, teve lugar em Fátima, de 23 a 25 de Março.
Nessa conformidade, permito-me transcrever, em anexo, algumas das palavras que ali foram proferidas e ficaram registadas, palavras que, porventura, poderão abrir pistas para atuação, sendo mesmo algumas de orientação pastoral.
Desejo sinceramente que estes excertos de conferências e homilias proferidas num contexto de Igreja – Movimento – Encontro, sejam inspiradoras e de alento na sua missão de Pastor.
Com respeitosos cumprimentos, renovo a disponibilidade para conversarmos sobre a problemática cigana, se assim o entender.
Lisboa, 2012. Junho. 13
Fernanda Eugénia Nunes dos Reis
PRESIDENTE
Seguem-se excertos dos seguintes textos de que apresentamos algumas afirmações.
► do Padre Don Piero Gabella, presidente do CCIT (PG):
“…O tema deste ano é mais do que nunca atual: “Perante uma sociedade cada vez mais estruturada, que cria a marginalidade, quais são os projetos evangélicos?”. A sociedade não para de se estruturar ficando cada vez mais complexa e … por isso, cria novas exclusões que atingem frontalmente os Ciganos.
Citando os primeiros versículos de 1 Jo 1 PG afirma:
Quem só confia na força gera injustiça, destruição, fome e morte: a Vida não pode fazer disto o seu refúgio; pelo contrário, a Vida encontra a sua fertilidade entre os fracos sem defesas e manifesta-se incessantemente nas ruínas dos poderosos… É nas pessoas submersas pelas dificuldades, que a Vida encontra a possibilidade de morar e de se revelar…
…Mas, Deus faz-nos este presente a nós também, pois partilhando com os nossos amigos o seu sofrimento e o desprezo, nós recebemos o presente de dar um testemunho que enche de uma alegria perfeita…
► Da mensagem do Conselho Pontifício da Pastoral dos Migrantes e Itinerantes
…A Igreja quer partilhar com os Rom algo muito precioso, a pessoa de Jesus Cristo e a mensagem da salvação. Cristo é a fonte da verdadeira vida e da verdadeira alegria. …
O que significa para nós hoje, dentro do nosso serviço ao povo Rom, amar a Deus e amar ao homem assim como Jesus nos amou? …
A vocês todos, queridos agentes pastorais, a Igreja confiou o mandato de proclamar o Evangelho aos Rom e de sustentar o caminho de fé deles. Nesta época de profundas mudanças, vocês representam aquela Igreja que, movida pela caridade, entra nos lares deles para tornar-se casa acolhedora. A vossa missão vos impulsione a encontrar as modalidades e os meios adequados para o povo Rom se sentir cada vez mais responsável da própria vocação na Igreja e na sociedade. Deste modo eles poderão viver segundo as difíceis exigências do Evangelho, confiando na força de Cristo. …
Os homens e as mulheres, chamados … a serem destinatários e também instrumentos dessa mesma graça… irão difundir a caridade de Deus, criando redes de caridade. Não se pode, portanto, de modo nenhum, separar a missão pastoral e a evangelização das questões sociais…
Neste contexto, a Igreja convida a promover a espiritualidade da comunhão, favorecendo a lógica da solidariedade que é de facto, aquela do amor. Isto requer uma atitude de aproximação consciente, capaz de descobrir e valorizar o bem que os Rom representam para a sociedade, aberta e disponível à colaboração…
…Enfim, a lógica da solidariedade comporta o recíproco respeito de direitos e responsabilidades. Os Rom são chamados a acolherem os progressos sociais que promovem a dignidade, a liberdade, a igualdade e a convivência entre as pessoas. É tarefa vossa ajudá-los para que possa surgir a força libertadora da dignidade humana deles, que leva ao compromisso…
► Da comunicação do Professor Doutor João César das Neves
Nas sociedades humanas de todos os tempos verificam-se várias razões para a marginalidade, e nem todas elas dependem da sociedade ser muito estruturada…. Podemos brevemente elencar três das principais razões de repúdio social que levam à marginalidade, avaliando a sua incidência no tempo corrente.
Veremos depois que um dos maiores problemas dos ciganos, como de outros grupos étnicos, é caírem em quase todas essas razões, e por isso têm sido das classes que mais sofreram de exclusão ao longo dos séculos. Uma resposta evangélica é o caminho para enfrentar esse problema.
…O primeiro motivo para a rejeição social é a diferença. Um povo despreza os que não pertencem à sua comunidade, que lhe são portanto distintos e alheios. Aqui caem todos os casos de racismo e discriminação étnica, mas também sexual, etária, além das questões que têm a ver com língua ou religião….
…Uma segunda razão para a descriminação é o incómodo. A sociedade tende a ostracizar aqueles que a perturbam. … Muita gente, que se afirma muito respeitadora das diferenças e defensora da igualdade, suscita repúdio quando se sente incomodada por outrem….
….Finalmente, a terceira razão da discriminação é a censura moral. Certas pessoas são afastadas da convivência social porque são vistos como más.
… Estes três motivos de repúdio, a diferença, o incómodo e a censura englobam grande parte dos fenómenos históricos de marginalidade.
… Se estes são os três motivos de marginalidade, qual é a solução? Pode dizer-se, como relativamente a tantas outras coisas, que a boa nova de Jesus Cristo é aqui uma das poucas soluções sólidas e duradouras para lidar com a diferença, o incómodo e a censura.
Um dos traços que mais marcaram a pessoa de Cristo no seu tempo, aspecto referido até pelos que o conheciam apenas de longe, é precisamente a sua atitude inclusiva. … Neste campo, como em tantos outros, o seu exemplo marcou a história do mundo, mesmo fora dos seus fiéis
… Assim, o mandamento inelutável do Cristianismo é o perdão: “Não julgueis e não sereis julgados; não condeneis e não sereis condenados; perdoai e sereis perdoados” (Lc 6.37)…
As perspectivas são as de sempre: anunciar Jesus Cristo, “escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é poder e sabedoria de Deus” (1Co 1, 23-24)”
► Da comunicação do Biblista Padre Dr. Marcelo Barros, do Brasil
…Na América Latina, o método teológico continua sendo aquele que se resume nas palavras: “ver, julgar e agir”. Isso significa que a reflexão se deve basear o mais possível na realidade e na situação atual do povo. A partir daí se faz a reflexão bíblica e teológica. Seria a segunda parte e finalmente o que de tudo isso se conclui para continuar a caminhada. É a parte mais propositiva ou prática…
… O século XXI começou com um forte agravamento das contradições. …
… Nos organismos internacionais, vários governos latino-americanos e africanos têm protestado contra as medidas repressivas dos governos europeus e norte americanos contra os migrantes clandestinos ou simplesmente pobres. Entretanto, nenhum governo, mesmo dos países mais pobres, se sente envolvido e nenhum defende os direitos dos ciganos, dos rom e dos elementos de minorias que mesmo tendo nascido num país determinado são considerados apátridas…
… O que quero dizer é que é profundamente espiritual, isto é, inspirado por Deus, esse fato das pessoas não se conformarem em viver a sina que é destinada aos mais empobrecidos: uma vida sub-humana e sob permanente risco de morte. Ao tentarem uma vida mais vida em outras paragens ou em estilos de vida alternativa, eles respondem positivamente a um chamamento divino para a vida, a dignidade humana e a liberdade…
… Sem dúvida, essa é a razão pela qual as pessoas e grupos vivem como nómadas e peregrinos no mundo: passar da resistência à esperança”….
… No Novo Testamento, evangelhos como Marcos apresentam Jesus em permanente itinerância e chamando seus discípulos a segui-lo. O que se observa é que quanto mais ele está fora das cidades e da sede do poder religioso e político, mais é aceite e a sua missão é compreendida. Quanto mais se aproxima da cidade e do templo, mais encontra conflito e oposição. …
Jesus viveu principalmente como itinerante porque queria testemunhar que Deus nunca pode ser aprisionado em um sistema religioso…
… Por isso, as comunidades paulinas valorizaram muito os missionários itinerantes…
… Sem querer ser exaustivo ou cansá-los com um curso bíblico, podemos concluir que, desde o começo do Cristianismo, a itinerância e a não cidadania desse mundo são constitutivos do ser cristão, como sinais da abertura ao reino que vem…
… Toda a terra estrangeira é para (os cristãos) como uma pátria e toda a pátria é uma terra estrangeira. Moram na terra e são regidos pelo Céu. Obedecem às leis estabelecidas e superam as leis através das próprias vidas. Amam todos e por todos são perseguidos…
… Mais tarde, no século IV, o Império Romano foi cooptando as Igrejas e o imperador Teodósio acabou por tornar o Cristianismo a religião oficial do império (em 395). A tendência natural dos pastores e das comunidades foi acomodar-se aos costumes do império. Por isso, muitos dos primeiros monges cristãos faziam voto de itinerância e também se colocavam como apátridas, rejeitando qualquer cidadania terrena…
… Como atitude profética…
… Nesse sentido, no século XXI os índios e comunidades de cultura nómada na América Latina, assim como os rom e ciganos na Europa exercem um papel profético em relação à sociedade acomodada e à própria Igreja de tipo Cristandade, hoje ainda dominante como modelo de Igreja e pastoral existente…
… Sem dúvida, a pastoral dos nómadas pode retomar nas nossas Igrejas, às vezes, por demais sedentárias e acomodadas, uma mística da itinerância. Em diversos países, temos a graça de contar com missionários e missionárias que se têm inserido nas comunidades nómadas, tornando-se eles mesmos nómadas e morando com esses irmãos nómadas em seus acampamentos. Entretanto, parece-me que sua experiência de vida e de missão ainda é pouco conhecida e pouco assumida pelas comunidades eclesiais. Seria importante que essa mística ou espiritualidade nómada pudesse contagiar toda a Igreja para que então toda a comunidade eclesial pudesse hoje ser com Jesus, a dizer novamente ao mundo: “eu era nómada, peregrino ou estrangeiro e vocês me acolheram”(Mt 25, 31 ss)…”
► Do discurso da Drª Rosário Farmhouse, Alta Comisária para a Imigração e Diálogo Intercultural
… Numa altura em que o mundo está a ser abalado por conflitos, desigualdades gritantes e incompreensões, este será o momento apaziguador e de reflexão profunda sobre os que nos rodeiam e que merecem a nossa solidariedade e respeito.
Este encontro, cuja partilha com ciganos tão diversos, mas tão semelhantes nos seus anseios, nas suas fragilidades e forças, trará um enriquecimento e uma nova luz para a construção de uma sociedade mais justa e solidária.
A Igreja tem um papel de destaque nesta construção, para além da comunhão espiritual, junta quem está empenhado no processo de socialização e na criação de novos caminhos para os ciganos, em que todos e cada um, sejam acolhidos e apreciados …”
► Da Homilia do Senhor Bispo Auxiliar do Patriarcado D. Joaquim Mendes, S.D.B., vogal da Comissão Episcopal da Pastoral Social e da Mobilidade Humana
“… Jesus, com a sua paixão, morte e ressurreição gerou o Povo da nova Aliança, a Igreja…
… O pão que consagramos sobre os altares é fruto do grão caído à terra, brota da morte e da ressurreição de Cristo. Este Pão, que nos alimenta e transforma, leva-nos a ser no quotidiano pão para os outros, sangue derramado, vida doada, … para que a vida se manifeste em nós…
…Que a Eucaristia fecunde as nossas vidas para que elas produzam o fruto que Deus, a Igreja, o mundo e os Ciganos esperam de nós…”
► Da Homilia do Senhor Bispo D. Jorge Ortiga, presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e da Mobilidade Humana
“… Moisés edificara uma serpente de ouro de tal modo que todos os que olhassem para ela ficavam curados do veneno. Não era o bronze da estátua que curava, mas o elevar o olhar para Deus…
…ao olharmos para a beleza da cruz de Cristo, na qual contemplamos a verdadeira identidade (ser) de Deus e do Homem (ontologia), ela obriga-nos a olhar para o outro que nos circunda. Em pleno encontro Anual do “Comité Catholique International pour les Tsiganes” (CCIT), esta imposição ontológica impela assim o nosso olhar a deter-se agora nas pessoas de etnia cigana.
Neste contexto, trago à memória aquelas palavras proferidas pelo Papa Paulo VI num encontro com os ciganos aquando de uma peregrinação a Pomezia em 1965, das quais emergem alguns princípios para a nossa ação pastoral:
“… Vós na Igreja não estais nas margens, mas, sob alguns aspectos, vós estais no centro. Vós estais no coração. Vós estais no coração da Igreja, porque estais sós: ninguém está só na Igreja; vós estais no coração da Igreja porque sois pobres e necessitados de assistência, de instrução, de ajuda; a Igreja ama os pobres, os que sofrem, os pequenos, os deserdados, os abandonados…
…e é aqui, na Igreja que vos sentis chamados filhos. Sim, filhos caríssimos, vós pertenceis a esta grande família de Deus…”
… Os irmãos de etnia cigana, na verdade, também pertencem a esta grande família de Deus! Perante esta certeza, importa que sejamos capazes de descortinar valores muito concretos numa cultura diferente, que a sociedade deveria harmonizar, através dum trabalho que proporcione convivência sadia sempre alicerçada na justiça e na paz.
… Por seu turno, a Igreja deve trabalhar para que sejam superadas as descriminações e intolerâncias que, sempre no respeito pela justiça, podem violar o princípio da dignidade humana e impedir o seu crescimento verdadeiro. Com o acolhimento, mesmo difícil, poderemos reconhecer as riquezas que nos proporcionam…
…A fé, ao longo da história, soube acolher todas as diferenças. Hoje precisamos de ter os sentimentos dum Deus que vê no fundo dos corações e que acredita em todos os homens, para edificar uma casa comum no respeito pelas diferenças. Não basta hostilizar ou ignorar!…
…Por isso, se o Estado oferece esporadicamente condições habitacionais, nós oferecemos permanentemente um sentido, um projeto de vida e uma prova de amor! E se o Estado olha para a obra, nós olhamos para as pessoas…
… Para terminar, deixemos então que a Cruz de Cristo eduque o nosso olhar para a ontologia do diferente, pois nele se revela também a presença salvífica de Deus. É o que constata Paulo na Carta aos Efésios: “a salvação não vem de nós: é dom de Deus…”
Lisboa, 2012. Junho 13