Dois mil ciganos espalhados por pinhais terras cristãs de Aveiro

DIA NACIONAL DO CIGANO EM AVEIRO
Dois mil ciganos espalhados por pinhais terras cristãs de Aveiro
No País serão uns 50 mil. Em Aveiro andam por uns dois mil ciganos, espalhados por becos sem saída ou pinhais dos dez concelhos da Diocese, que vai de Estarreja a Anadia, dos areais de São Jacinto às encostas poentes do Caramulo.
Pára, olha, escuta, acolhe-lhemos, saboreamos (!) nós num cartaz, que gente ligada ao mundo cigano nos quis meter pelos olhos dentro, no Dia da Comunidade Diocesana de Aveiro, celebrado sob frondoso arvoredo do místico e histórico Santuário da Senhora de Vagos, este ano coincidente, também, com o Primeiro Dia Nacional do Cigano, em data do popular João Baptista.
A comunidade Diocesana, com o seu Bispo, D. António Francisco, desde manhã reflectiu o universo inacabado da Família. A Família Gitana também esteve, de algum modo, presente debaixo das frondosas arvores, sob os olhares da Senhora, que um dia teria chorado, como relatam os cronistas de há três décadas.
Mil e um problemas debatidos, porventura, mastigados, quiçá, inconclusivos, com certeza! Que famílias se analisaram, se reflectiram?! As do rendimento mínimo ou do rendimento máximo?! Os bem casados, divorciados ou só os do Sagrado Sacramento do Matrimónio? Naquela assembleia plenária, num palco de árvores muito verdes com troncos, quiçá, seculares, havia, pelo menos quatro gerações: Pais com um filho, dois, o máximo, ao lado de pais – avós que tiveram seis, sete, dez filhos, mais…. em mil e uma dificuldade.
A família CIGANA, que também é constituída por PESSOAS, esteve em foco, mas apenas, em cartazes, fotos bem expressivas, sensibilizantes, colhidas in loco, nas vésperas, em terras aveirenses, em vários acampamentos, e ainda em comunicados, documentos oficiais e em muitos livros e revistas cedidos pela Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos e pelo Secretariado Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos, uma radiografia do que se passa também noutras paragens do País, mesmo fora de Lisboa ou Porto.
A família Cigana contrastou, ali, em tenda montada, constatando que os seus princípios familiares estão ainda muito longe dos clássicos, tradicionais ou modernos da nossa Sociedade. A crise de natalidade é abismal. Na família cigana a média anda pelos seis filhos. Nas restantes, cristãs, ou outras, será de um filho, quando muito!
Ao lado da tenda cigana, uma outra, a da Cadeia de Aveiro, mas aqui ao ar livre, sem grades. Pretenderam os seus responsáveis voluntários dar a conhecer à comunidade, também para a sensibilizar, a vida de um estabelecimento prisional, onde a disciplina se vai casando com a cultura e a arte de gente nova que por ali passa ou está. A Igreja também ali está ao lado dos que sofrem, das suas famílias, preparando essas famílias “presas”, com a Direcção de Serviços Sociais, para uma condigna reinserção. Estive preso e foste-me visitar… Estava sem emprego e deste-me trabalho.
Refira-se que mais de 90% da população da Cadeia Regional de Aveiro é jovem dos 18 aos 30 anos…
Olhos nos olhos
Sem pernas nem braços pede uma casa
Quase perdido, sem cabeça para cogitar, vou recebendo os ânimos da Irmã Luísa que nos acompanhou, mais uma vez aos acampamentos dos Ervideiros, das Ervosas, de São Bernardo, de Aradas.
Num dos três acampamentos, o da Lixeira de Tabueira, moram famílias. Uma mulher vai sendo mestra daqueles agregados. Marido e filho na cadeia, a Rosa, com 41 anos, vai ser mãe pela 11ª vez. Os dez estão todos vivos.
Para além das visitas quase quotidianas, ao marido e ao filho, tem os problemas dos diabetes. A tenda vai cobrindo os filhos e protegendo uma mulher grávida. Como nos interpelam estas situações!- cogitamos nós ao lado de uma carroça com um elegante burro, raça já em extinção, uma das alegrias daquele acampamento. E o burro está atento a todas as manobras e antes da máquina disparar, hirto, afina as orelhas, parece escutar a sina de um cigano, da cigana Rosa.
Andamos pelas Ervosas no desenvolvido concelho de Ílhavo. Por ali mora um mar de gente cigana: mora ou vegeta?!
Mas o Miguel, que conhecemos há anos, de quando ele começou a deambular desde Aveiro às Gafanhas, já fez 32 operações. Já não tem mãos, nem um braço, já não tem pernas! Apenas o tronco! Ainda esboça um sorriso, um olhar longínquo preso a uma cadeira de rodas onde o vão movendo. Ao lado de um lindo lago, onde se pesca peixe variado, metido no meio do pinhal mora o Miguel, vegeta uma Pessoa à espera que a Câmara lhe proporcione uma habitação condigna a um doente sem membros… Veja, veja lá se me consegue uma casa. Abandonou-me! Nunca mais cá veio!, desabafa o Miguel.
Eu parto e trago o Miguel na cabeça, mais no coração! O Miguel, muitos migueis deste
país precisavam mais da comunidade! Precisavam. E daqui lanço um SOS aos responsáveis autárquicos e aos zelosos párocos, e desta tribuna evocarei um grande Homem- Padre Américo-: cada Paróquia trate dos seus pobres sem olhar a credos ou religiões, mas simplesmente à PESSOA. E rogo ao primeiro Santo Cigano. Zeferino “Pelé”, mártir na Guerra Civil de Espanha, que rogue por toda a Humanidade.
Diác. Perm. Daniel Rodrigues
Responsável pelo Secretariado Diocesano da Pastoral dos Ciganos de Aveiro