Porque é que os ciganos ficam à porta?
Diário de Notícias (27 Nov)
Grande Reportagem – Comunidade Cigana
Porque é que os ciganos ficam à porta? (texto de Céu Neves)
Discriminação: As condições degradantes em que vivem alguns ciganos em Portugal têm sido motivo de queixa junto do Conselho da Europa. Acusam o país de segregar e de discriminar a comunidade. Estivemos em bairros com as piores condições sociais e que motivaram denúncias. Quisemos perceber porque é que vivem nas periferias das cidades e das aldeias, em zonas industriais e de difícil acesso, acantonados, alguns paredes meias com animais. Falámos com os ciganos e com os técnicos que com eles trabalham. Deram-nos a imagem de uma comunidade com costumes, hábitos, e defeitos, enfim, com uma cultura muito própria. São sobretudo os que vivem nos meios rurais que resistem à mudança. Mas, também, referiram a percepção negativa que deles tem a população em geral, que consideram a maior culpada. E as medidas em defesa da comunidade cigana não dão votos. Antes pelo contrário!
O artigo foca os temas da habitação, nomadismo?, educação, família, trabalho e cultura.
A partir da observação de diversas comunidades ciganas, concretamente, Borba, Vidigueira, Moura, Coimbra, Pombal, entre outras, o artigo pretende apresentar de forma imparcial a situação da comunidade cigana em Portugal. Lídia Mestre, assistente social há 18 anos, 8 dos quais como técnica da Câmara da Vidigueira, explica que “há culpas de parte a parte, mas a maior responsabilidade é dos não ciganos” porque “não lhes são dadas oportunidades”. E acrescenta que “os serviços marginalizam-nos descaradamente. E acho que eles adquirem certos hábitos para se defenderem. As pessoas alugam casa a toda a gente menos aos ciganos.” Recorda o caso de António Cabeças, de 28 anos, que foi mediador municipal, com um vencimento a rondar os 800 euros, o que lhe permitiu tirar a mulher e o filho do acampamento onde moravam no Castelo, à saída da Vidigueira. Alugaram uma casa por 250 euros que agora vai ter dificuldade em pagar. “É a nossa casinha, os vizinhos gostam de nós, isto é muito melhor”, conta a mulher. Apesar dos elogios da assistente social, a autarquia não lhe renovou o contrato. Alexandra Castro, socióloga, refere que noventa por cento dos ciganos são sedentários, o que contradiz a imagem de povo nómada, percepção essa que tem atrasado as políticas de realojamento desta comunidade”.
A Câmara de Beja tenta impedir que os ciganos permaneçam acampados no Bairro das Pedreiras [construído com o nome de Parque Nómada NR], caso contrário, nunca pararia o número de pessoas para realojar. Prudência Canhoto, 38 anos, mediador em Beja, tenta encontrar solução para os casos mais graves. Um cigano que tirou o curso de mecânico queixa-se que não consegue arranjar trabalho. O muro que é o principal motivo pela qual o Centro Europeu para os Direitos dos Ciganos apresentou queixa no Conselho da Europa vai ser rebaixado, mas a autarquia não o retira alegando razões de que poderia representar perigo de segurança.
Em relação à educação, Bruno Gonçalves (BG), mediador, adverte que não se pode generalizar que a maioria dos ciganos considera a escola como uma perda de tempo (não se aprende a negociar): também existem bons exemplos. Uma cigana de Sobral da Adiça, Moura, a quem o pai tinha tirado da escola com 12 anos “com medo que fugisse com um namorado”, voltou à escola com 14 anos, com o marido. Vivem com 16 famílias em barracas, sem água nem luz. “O 25 de Abril nunca entrou por aqui” queixa-se um morador no bairro.
Em relação à família continuam a combinar os casamentos dos filhos e entre os membros da comunidade, embora BG diga que a tradição está a mudar e que há casamentos mistos (ciganos com não ciganos). Se “fogem” (homens com as raparigas que amam mas que não são do gosto da família), “o casamento está consumado”. Relativamente ao trabalho, BG refere que “a minha grande vitória neste ano foi colocar um cigano a trabalhar numa Junta de Freguesia”. BG é mediador em Coimbra, um dos 11 mediadores municipais do projecto-piloto do ACIDI. Maria Helena Torres, coordenadora do projecto lamenta que tenha havido (duas) desistências.
Os técnicos dizem que a inclusão é impossível se continuarem segregados em bairros sociais ou de barracas. A comunidade cigana deixa cada vez mais a Igreja Católica para se refugiar nas novas religiões, nomeadamente na Igreja Evangélica de Filadélfia. “Em 1882 deram-vos a cidadania, mas não passou do papel, diz BG. As comunidades ciganas estão na quarta linha da cidadania”.” É no Alentejo que “há uma percepção mais negativa dos ciganos”.
O artigo termina referindo que “os bairros que visitámos dão razão à comissária europeia da Justiça, Viviane Reding, que considerou ‘escandalosa’ a situação que se vive na Europa. Dez milhões de ciganos, ‘ a viver numa pobreza absoluta, que não acederam à habitação e à saúde’”.