DIMINUIR AS INCOMPREENSÕES PARA COM A POPULAÇÃO CIGANA, ATRAVÉS DE UMA COMUNICAÇÃO SOCIAL BASEADA NA VERDADE, PEDIU O CARDEAL ANTONIO VEGLIÓ
Na mensagem que enviou ao Encontro que assinalou o 40º aniversário do CCIT (Comité Católico Internacional para os Ciganos), o Cardeal Antonio Veglió, Presidente do Conselho Pontifício da Pastoral para os Migrantes e Itinerantes, lamentou que os meios de comunicação social sejam, muitas vezes, “mensageiros de ‘verdades distorcidas’” sobre a população rom (cigana). O Cardeal Veglió apelou para que a maneira de comunicar seja “correcta, precisa e exacta”, já que “o preconceito nasce, em geral, de conhecimentos errados ou incompletos” e em “verdades distorcidas”.
Por outro lado, o Cardeal Veglió afirmou esperar “que também o povo cigano se comprometa a tirar vantagem dos novos meios de comunicação, para a sua promoção e para a evangelização, tornando-se um protagonista activo do mundo mediático, sendo capaz de fazer respeitar a sua própria dignidade e de tornar mais visíveis os valores da cultura cigana”. Utilizar as potencialidades da comunicação social “supõe também envolver-se na primeira pessoa e criar novas oportunidades para comunicar a sua própria identidade, tornando-se o actor principal” da comunicação sobre a realidade.
O Encontro do CCIT realizou-se em Snagov, Roménia, de 24 a 26 de Abril, tendo reunido cerca de 150 participantes, muitos de etnia cigana, de 21 países. Portugal fez-se representar pela ONPC, pelos Secretariados Diocesanos da Pastoral dos Ciganos de Lisboa e do Porto e pela Cáritas de Vila Real.
O Presidente do CCIT, P. Claude Dumas (CD), cigano francês, afirmou que os jovens ciganos usam, cada vez mais, as novas tecnologias de comunicação entre eles e que, além de informações sobre as reuniões das respectivas Igrejas, a Bíblia aparece no Facebook destes jovens. Sites como “Gentes de Viagem Católicos”, “Jovens Viajantes Católicos da França”, Katholice Fahrenden Volkes” da Suíça, servem de veículo de evangelização. CD considera ainda que a vocação do CCIT é ser “uma verdadeira lição de comunicação através da experiência de vida”.
Violeta Barbu descreveu a situação dos ciganos na Roménia como muito difícil. Na Roménia, os ciganos constituem 3% da população (622.000 numa população de 19 milhões de pessoas); eles sofrem desprezo e os actos de discriminação ficam impunes. A escravatura dos ciganos na Valáquia e na Moldávia durou até à primeira parte do séc. XIX; “ignorada pela historiografia romena e não comentada no espaço público, ela tornou-se imperceptível”. “Uma vez libertados, os ciganos foram, de facto, expulsos da sociedade, privados da possibilidade de trabalhar, de aceder à educação, de mudar a sua condição”.
A maioria dos ciganos romenos que agora viajam na Europa eram sedentários há séculos, escravos – trabalhadores agrícolas -, nos mosteiros (ortodoxos) e nos soberanos (Estado). O enorme problema dos ciganos na Roménia é “constituído pelo próprio Estado Romeno, incapaz de reconhecer a sua responsabilidade histórica … e de elaborar políticas duráveis de integração social da população cigana”.
O P. Teodor Lechintan, sj (TL) afirma que a imigração dos ciganos romenos acontece quando as suas fontes de rendimento (comércio de ferro velho, construção civil ou agricultura) se esgotam e acrescenta que um estudo sobre as “idas e retornos” de muitas famílias ciganas ainda não foi feito. A imprensa romena faz crer que os ciganos vivem unicamente de subsídios sociais o que TL contesta: 31% do rendimento dos ciganos provém do trabalho, 23% de prestações familiares e apenas 14% de subsídios sociais.
As condições de habitação são alarmantes: apesar de os políticos terem previsto a disponibilização de recursos para o efeito, a área média das habitações é apenas metade da dos não ciganos; 72% não tem acesso a água canalizada (contra 52% para os não ciganos). 18% das pessoas sem qualificação são ciganas (97.000), das quais apenas 34% concluiu o 1º ciclo de escolarização, 35% o 2º ciclo e 5% frequentou o 3º ciclo. A escolarização dos ciganos na Roménia foi promovida por medidas governamentais tais como a discriminação positiva e pelo trabalho de associações civis e religiosas.
As políticas da Europa relativamente aos emigrantes em massa não têm em conta a flexibilidade que estes têm para se integrar; pelo contrário, essas políticas têm sido incoerentes e provisórias, com a consequência de exporem os ciganos ao ódio racial e de criarem neles insegurança e desconfiança relativamente às políticas de apoio. Em 2008, 42% dos ciganos romenos emigrantes em Itália residiam em acampamentos miseráveis, em barracas ou não tinham habitação.
Sob o ponto de vista religioso, 76% dos ciganos romenos declaram-se ortodoxos; aqueles que aderiram à “nova evangelização” (pentecostais, baptistas, adventistas e outros) duplicaram entre 2002 e 2011, sobretudo nos meios rurais.
No sentido de uma renovação da pastoral dos ciganos, a Igreja Ortodoxa desenvolveu recentemente a catequese em paróquias onde a concentração de ciganos é importante. A Conferência Episcopal Católica e o Sínodo da Igreja Ortodoxa procuram colaborar nas questões relativas aos ciganos, designadamente através de encontros de sacerdotes ciganos de ambas as Igrejas e de traduções da Bíblia para romani. Várias associações católicas estão a promover a inclusão dos ciganos na sociedade, como por ex. a Cáritas Romena e a Comunidade Santo Egídio.