Jornal de Notícias (25 dez) – PASTORAL
É dia de Natal e casório no acampamento
Viana do Castelo: Tradição da comunidade de Darque manda dedicar a consoada à família e aos mortos. Hoje, fazem por esquecer as tristezas e a festa é a dobrar
O dia de Natal, este ano, no lugar das Alminhas, em Darque, foi marcado por um casamento cigano. Casou um dos ciganos das 36 famílias que, há cerca de 40 anos, residem naquele acampamento, em barracas.
Mais de 200 pessoas celebraram o casamento e as tradições de Natal. A matriarca e fundadora do acampamento, Maria da Conceição Monteiro (MCM), conhecida por “Branca” não sai de casa porque está de luto; tem 68 anos e foi a primeira a instalar uma barraca no lugar das Alminhas, há cerca de 40 anos, após ter ficado viúva. Há quatro anos morreu-lhe um filho com 42 anos; teve oito filhos e tem inúmeros netos.
O Natal é a festa da família e por isso os filhos são presença obrigatória junto dos pais. Na consoada ceiam no chão, pouco mais do que feijão vermelho, com restos de bacalhau. E evocam os familiares mortos. “Na consoada não comemos carne. É impossível. Mas no dia a seguir fazemos festa … (que) dura o dia todo e para alguns continua amanhã com os restos. Chamamos-lhe ‘mañanada’”, explica Emídio Robalo, de 26 anos”.
André é Calon, mas amigo dos galegos
André Maia, membro de uma outra comunidade que vive em apartamentos no Bairro do Fomento, em Darque, age como interlocutor do acampamento. Distingue as duas comunidades. “Nós já existimos há 500 anos. Somos os Calon. Eles vieram da guerra civil de Espanha de cavalo e carroça. São os mais pobres. Não querem sair das barracas. Nós chamamos-lhe galegos. São pacíficos, mas falam pouco. Não têm convívio e são fechados… . Mas há um ponto comum: ‘somos todos ciganos e a família é o nosso ser’ ”.
Também o presidente da Junta de Freguesia de Darque, Joaquim Perre, tem relações de boa convivência com o acampamento. “A mim sempre me respeitaram. Nunca tive problemas. Entro aqui com facilidade”, sublinha o autarca.