Os sofrimentos da etnia cigana
Ecclesia (18 Mar)
Os sofrimentos da etnia cigana
Os ciganos são “esquecidos e incómodos porque não dão dividendos políticos” – denuncia Francisco Monteiro (FM)
Os ciganos portugueses “sofrem muito”. Perante esta situação, FM, Director Executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos (ONPC), apela a medidas concretas para que se “resolvam os problemas urgentes” da etnia cigana. Este apelo surge na sequência da apresentação pública do Relatório das audições efectuadas pela AR sobre portugueses ciganos no âmbito do Ano Europeu para o Diálogo Intercultural. FM afirmou à Ecclesia que este sofrimento tem origem nos factores básicos da exclusão dos ciganos: “habitação, educação e emprego”.
Recordando que os ciganos desde há 500 anos “são vítimas de discriminação”, FM realça o facto de as feiras estarem a acabar “e que são o ‘pão-nosso’ dos ciganos”. E exemplifica: “A Câmara de Almada está a acabar progressivamente com a feira diária”. Dá ainda como exemplo a Escola de Barqueiros que lecciona aulas separadas para ciganos. “O estarem separados é discriminação.” Os próprios pais dos alunos ciganos daquela Escola sublinharam que “os filhos sentiam-se mal porque estavam isolados”. Estes casos são frequentes refere FM, frisando que “há ciganos que são colocados no fundo da sala e têm recreios separados dos restantes alunos”. Também acontecem casos de não haver lugares “para os ciganos no pré-escolar” e “para os outros há”. Mergulhados neste mundo discriminatório, os ciganos “revoltam-se e, às vezes, criam problemas”.
Adianta que no mundo laboral, as dificuldades também são frequentes: “quando o empregador descobre que é cigano manda-o embora”. Mas também existem casos positivos, sublinhando o facto de nos preocuparmos só com os negativos, acrescenta que “há iniciativas que não “colam” aos ciganos porque “são pensadas de cima para baixo e não o inverso”.
FM recorda o caso de Espanha onde os ciganos têm peso porque “são cerca de 600 mil”. Para alterar este panorama apela “há consciência das autoridades públicas”, frisando que “é preciso ter coragem para começar” e que ciganos estão “disponíveis”. Nas questões de realojamento este “deve ser acompanhado antes, durante e depois. FM refere ainda que existem casos de “pleno sucesso” e que “ninguém gosta de estar numa barraca à chuva e ao vento”,
A AR publicou uma lei sobre os mediadores socioculturais – “são a chave da solução da educação dos ciganos”. Todavia, a lei “está no tinteiro porque o Ministério da Educação não quer resolver o problema da carreira dos ciganos”. E acrescenta que “há dezenas de mediadores socioculturais que estão no desemprego”.
Sobre o relatório apresentado ontem FM afirma: “não temos esperança nenhuma”.