Ao longo da história, a Comunidade Cigana primou por ser uma comunidade que procurou sobreviver pelos seus próprios meios, através duma economia familiar ligada ao comércio nas feiras ou do trabalho agrícola sazonal.


EDITORIAL
Ao longo da história, a Comunidade Cigana primou por ser uma comunidade que procurou sobreviver pelos seus próprios meios, através duma economia familiar ligada ao comércio nas feiras ou do trabalho agrícola sazonal.
A globalização da economia do nosso tempo, com regras rígidas impostas do exterior, tem levado a que muitas famílias ciganas percam o seu meio natural de subsistência, caindo num progressivo empobrecimento e na necessidade de procurar meios de subsistência alternativos. Actualmente já encontramos alguns ciganos que, sem perderem a sua identidade de pertença ao seu povo e cultura, estudam ou trabalham, aproveitando as oportunidades que lhes surgem para se autopromoverem e para garantiram o sustento digno das suas famílias.
É para nós motivo de esperança o projecto do Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) para Mediadores Municipais junto das Comunidades Ciganas. Trata-se de manifestação de interesse das entidades públicas, Governo, através do ACIDI, e Câmaras Municipais, de contribuírem para ajudar a Comunidade Cigana a sair do gueto a que está remetida há séculos.
São quinze as Câmaras Municipais a realizar o projecto. São quinze os irmãos e irmãs ciganos que, como mediadores, têm oportunidade de ajudar os seus, têm possibilidade de contribuir para um reconhecimento do povo cigano como minoria étnica com direito a existir, com direito à diferença, que quer viver e conviver com a sociedade onde está inserida, não em conflito, mas numa relação de respeito mútuo e de convivência pacífica, porque, na verdade todos fazem parte da mesma sociedade.
O que mais dignifica a pessoa humana são os seus valores, particularmente o trabalho como valor primordial e meio mais digno de subsistência humana, meio que liberta o ser humano de dependências que humilham e destroem a dignidade da pessoa. São quinze os mediadores ciganos que agora têm oportunidade de trabalhar, de mostrarem à sua comunidade o valor do trabalho e de mostrarem à sociedade maioritária a sua capacidade para desenvolverem o trabalho que lhes está confiado. São quinze pessoas que podem ser modelo para tantos ciganos, particularmente para os jovens, que vivem sem perspectivas de futuro, incentivando-os a lutarem pelo espaço a que têm direito dentro da sociedade portuguesa.
Às quinze Câmaras Municipais que estão no projecto, às outras nove que não viram as suas candidaturas aprovadas, queremos felicitar pela coragem em assumir este tipo de projecto, contribuindo, assim, para ajudar a eliminar o preconceito generalizado, presente na sociedade portuguesa, contra a etnia cigana. Aos mediadores queremos desejar os maiores sucessos, motivando-os para que se empenhem com alma e coração no projecto, na certeza de que o seu trabalho é de primordial importância na promoção do povo cigano.
P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.