Foi em meados do século XV que o povo cigano se estabeleceu em Portugal. Bem acolhido no início, durante séculos este povo tem sido marginalizado e pouco apreciado, o que o levou a criar uma estrutura comunitária, fechada, muitas vezes envolta em mistério e exotismo, e contribuiu para que o cigano seja visto como um indesejável e para que fossem criados muitos estereótipos negativos à sua volta.

Editorial Caravana 55
Foi em meados do século XV que o povo cigano se estabeleceu em Portugal. Bem acolhido no início, durante séculos este povo tem sido marginalizado e pouco apreciado, o que o levou a criar uma estrutura comunitária, fechada, muitas vezes envolta em mistério e exotismo, e contribuiu para que o cigano seja visto como um indesejável e para que fossem criados muitos estereótipos negativos à sua volta.
Se os estereótipos de que o povo cigano tem sido objecto são fruto do desconhecimento da sua história e cultura e o têm perseguido para onde quer que vá, o conhecimento da sua cultura, identidade, organização social e regras internas, são um meio para a compreensão, aceitação, respeito e desmontagem dos estereótipos absurdos que o envolvem.
Em Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e Exclusão Social, onde os povos da Europa, ao menos ao nível das intenções políticas, manifestam vontade de acabar com as situações de pobreza e miséria que assolam uma grande faixa da população, lançar um novo olhar para a situação do povo cigano é, de facto, um acto de justiça histórico, porque, na verdade, se muitos ciganos vivem numa situação humana, social e económica completamente degradada, esta deve-se, essencialmente, à injustiça e marginalização a que este povo tem sido remetido ao longo dos séculos.
A Igreja Católica também tem de lançar um novo olhar sobre a realidade cigana no nosso país, promovendo o acolhimento e a integração, nas suas comunidades, de todos os que a procuram, contribuindo, assim, para que a todos seja reconhecida a sua dignidade humana e de filhos de Deus. Infelizmente, e muitas vezes, ouvimos o lamento de que os ciganos aderiram, na sua maioria, às Igrejas Evangélicas, no entanto, raramente, ouvimos um questionamento, se a razão desta adesão não será devida ao facto das comunidades católicas terem descurado a pastoral com a comunidade cigana?
Deus criou todos os homens iguais, todos são filhos de Deus, por isso, num tempo de tantas contradições, o mundo necessita de sinais significativos visíveis, sinais evangélicos incarnados no mundo, duma forma particular o sinal da fraternidade universal fundada na revelação da paternidade divina que fez de todos os homens um só povo (cf. Ef , 14-17), transformando a humanidade numa fraternidade de irmãos. A Igreja não pode ser mera depositária dos valores evangélicos, apresentando-os como o ideal de realização da humanidade, tem de incarná-los, vivê-los e pô-los em prática.
O Ano Europeu de Luta contra a Pobreza e Exclusão Social, no confronto com a situação de pobreza e exclusão do povo cigano, deveria tornar-se para toda a Igreja um desafio, um espinho nas consciências, pois enquanto um irmão viver despido da sua dignidade humana, marginalizado e mal amado, sem o mínimo de condições de vida digna, a Igreja não pode fechar os ouvidos ao seu clamor, devendo ter presente que Cristo a instituiu para continuar a sua missão de proclamar no mundo a Boa Nova aos pobres (cf. Lc 4, 18).
P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.