EDITORIAL – Caravana 79
Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, celebrado no passado dia 1 de janeiro, o Papa Francisco fazia o convite à humanidade para “vencer a indiferença e construir a paz”. De facto, um dos maiores pecados do nosso tempo é a indiferença, uma indiferença generalizada e globalizada, fruto duma cultura individualista, onde cada individuo se preocupa, apenas e só, com o seu bem-estar, esquecendo o outro, com os seus sofrimentos e dramas de vida.
Assistimos diariamente, através dos meios de comunicação social, a dramas, tragédias e até mesmo à morte em direto. Esta realidade está a levar o ser humano a um tipo de insensibilidade e de relativismo que produz indiferença face ao sofrimento do outro, às situações de marginalização e exclusão, e até mesmo ao desrespeito pelos seus direitos fundamentais.
Esta indiferença aparece de forma bastante visível em relação à situação do povo cigano. As condições precárias de vida, devido à exclusão no mercado do trabalho, não tocam o coração da população maioritária nem a leva a tomar consciência do direito de todo o ser humano a ter uma vida digna.
Enquanto a humanidade não for capaz de vencer esta indiferença generalizada, vencendo também os preconceitos e desconfianças face à população cigana, não será possível erradicar a discriminação, o racismo e a xenofobia, vamos continuar a assistir aos atropelos à dignidade e aos direitos dos ciganos, assim como à sua exclusão social e do trabalho que lhes poderia garantir uma vida digna, ultrapassando os níveis de pobreza em que a maioria está imersa.
O Papa Francisco na Bula de proclamação do jubileu extraordinário da misericórdia “Misericordiae Vultus” (MV) diz: “Neste Ano Santo, poderemos fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo actual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo”.
Em Ano de Misericórdia, acolhamos os apelos do Papa Francisco para vivermos a misericórdia evangélica com abertura de coração aos mais necessitados e marginalizados, ultrapassando toda a indiferença face aos seus sofrimentos, a fim que possam encontrar em nós um verdadeiro “oásis de misericórdia” (cf. MV).
P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.