EDITORIAL “CARAVANA”
Todos os dias, de uma forma ou de outra, somos confrontados com notícias sobre a comunidade cigana, na sua maioria notícias negativas porque, infelizmente, na cultura do nosso tempo a notícia que provoca escândalo e sensacionalismo é a que vende e a que aparece com grande destaque nos meios de comunicação.
A orientação mediática do sensacionalismo que tem em vista apenas o lucro, continua a disseminar estereótipos e preconceitos, assim como a alimentar velhos medos entre a comunidade maioritária e a comunidade cigana, afastando-as cada vez mais uma da outra. Esta realidade leva-nos a refletir sobre a necessidade de romper com a corrente histórica de preconceitos e discriminações entre ambas as comunidades e, para isso, os meios de comunicação deveriam ter um papel fundamental, centrando a informação mais no positivo que existe no seio da Comunidade Cigana e menos no negativo.
Tendo em conta a discriminação de que tantos ciganos são vítimas e a bandeira que a sociedade e o mundo da política faz da Constituição da República Portuguesa como garante da defesa dos direitos de todos os cidadãos, parece que esta não se aplica aos ciganos, pois face a estes o que diz o artigo 13 não se cumpre: “Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão da ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual”.
Somos de crer que, apesar das diferenças culturais face à sociedade maioritária, se fossem dadas aos ciganos as mesmas possibilidades que ao resto da sociedade, em particular o acesso à educação, à habitação, ao emprego, aos cuidados de saúde…, facilmente os estereótipos e os preconceitos desapareceriam e todos, ciganos e não-ciganos, se olhariam e respeitariam como iguais.
A Igreja sempre, mas em particular neste Ano Jubilar da Misericórdia, é chamada a ser a primeira a eliminar estereótipos e preconceitos, a fim de poder “fazer a experiência de abrir o coração àqueles que vivem nas mais variadas periferias existenciais, que muitas vezes o mundo contemporâneo cria de forma dramática. Quantas situações de precariedade e sofrimento presentes no mundo atual! Quantas feridas gravadas na carne de muitos que já não têm voz, porque o seu grito foi esmorecendo e se apagou por causa da indiferença dos povos ricos. Neste Jubileu, a Igreja sentir-se-á chamada ainda mais a cuidar destas feridas, aliviá-las com o óleo da consolação, enfaixá-las com a misericórdia e tratá-las com a solidariedade e a atenção devidas. Não nos deixemos cair na indiferença que humilha, na habituação que anestesia o espírito e impede de descobrir a novidade, no cinismo que destrói. Abramos os nossos olhos para ver as misérias do mundo, as feridas de tantos irmãos e irmãs privados da própria dignidade e sintamo-nos desafiados a escutar o seu grito de ajuda. As nossas mãos apertem as suas mãos e estreitemo-los a nós para que sintam o calor da nossa presença, da amizade e da fraternidade. Que o seu grito se torne o nosso e, juntos, possamos romper a barreira de indiferença que frequentemente reina soberana para esconder a hipocrisia e o egoísmo”. (cf. Misericordiae Vultus, Bula de proclamação do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, do Papa Francisco, 15).
P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.