EDITORIAL – CARAVANA 82

 

Como sacerdote católico, desde que me foi confiado o serviço de Diretor da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos, o qual assumi como missão ao serviço da Igreja, e, por consequência, entrei em contacto com muitas Instituições que trabalham com Ciganos e com as políticas referentes aos mesmos, ouço falar de integração dos Ciganos, de igualdade de oportunidades, de educação, de habitação digna e de tantas outras realidades de que a Comunidade Cigana é carente, isto segundo a opinião da maioria. Sempre vi surgir projetos e mais projetos; políticas e mais políticas, a nível nacional e europeu, porém, se procurarmos os resultados, são poucos ou nulos.

 

Sentimos que a sociedade maioritária continua a manter os seus preconceitos e até certa hostilidade contra esta faixa da população, que é parte integrante da sociedade portuguesa. Portugueses como qualquer português. Pergunto-me: porquê? Como é possível rotular de forma pejorativa toda uma comunidade étnica devido ao facto de ter no seu seio alguns prevaricadores? Talvez porque é cómodo descarregar as nossas frustrações, provocadas pelas injustiças sociais, sobre os mais fracos da sociedade.

 

Esta realidade não deixa de levantar algumas questões que devem ser refletidas e podem ajudar a desmontar alguns preconceitos e hostilidades: quantos ciganos estão envolvidos em offshores, em “faces ocultas”, ou em outros mega processos de corrupção na sociedade maioritária? Quantos ciganos estão envolvidos em lavagens de dinheiro, em sabotagens da economia e escândalos financeiros, em falsas falências que provocam o desemprego de milhares de pessoas? Quantos ciganos estão envolvidos nos escândalos da corrupção que abrange a nossa classe política e a elite da sociedade?

É certo que alguns ciganos provocam desacatos e não respeitam as normas impostas pela maioria, mas se estes não respeitam, também as outras minorias o não fazem, sobretudo, os membros da maioria, onde parece que a criminalidade e a violência estão cada vez mais enraizadas: basta para isto vermos os casos que todos os dias nos chegam pela comunicação social, de crimes violentos e de violência doméstica.

Existem duas vias que podem ajudar a ultrapassar muitos dos preconceitos e ajudar a Comunidade cigana a adquirir o seu lugar na sociedade, que é seu por direito. O primeiro é a via da justiça. Enquanto a sociedade não promover uma justiça igual para todos; enquanto os pequenos criminosos, ciganos e não-ciganos, forem os “bodes expiatórios”, e os grandes criminosos, corruptos e ladrões de “luva branca” escaparem impunes, não será possível ultrapassar preconceitos. Enquanto não se fizer uma opção pela promoção no seio da Comunidade Cigana sobre a importância da educação das crianças e jovens para os formar e abrir horizontes para a vida, continuaremos com políticas que obrigam à frequência na escola mas que não promovem o interesse, e daí o insucesso escolar, sendo apenas o meio que garante a não perda do “Rendimento Social de Inserção”, que contribui para que a pobreza dos ciganos seja menos dolorosa.

P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.