A exclusão e pobreza presente nas comunidades ciganas continuam a ser um dos maiores desafios das sociedades actuais. Como é possível que na chamada época pós-moderna, sessenta anos após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, num mundo, particularmente na velha Europa, milhões de pessoas continuem a viver marginalizadas, excluídas da sociedade e a ser vítimas de preconceitos e reacções xenófobas, sofrendo níveis de pobreza que muitas vezes ultrapassam a capacidade de sofrimento humano.
EDITORIAL CARAVANA
A exclusão e pobreza presente nas comunidades ciganas continuam a ser um dos maiores desafios das sociedades actuais. Como é possível que na chamada época pós-moderna, sessenta anos após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, num mundo, particularmente na velha Europa, milhões de pessoas continuem a viver marginalizadas, excluídas da sociedade e a ser vítimas de preconceitos e reacções xenófobas, sofrendo níveis de pobreza que muitas vezes ultrapassam a capacidade de sofrimento humano. Racismo, xenofobia, discriminação, exclusão e pobreza são fenómenos abomináveis, que vão contra a dignidade do ser humano e contra o direito internacional e nacional que rege os povos.
Ao olharmos para a realidade de exclusão e marginalidade em que vive a etnia cigana constatamos que a hipocrisia dos decisores políticos continua a reger o nosso mundo. Nações Unidas, União Europeia, os governos de cada país, também o de Portugal, legislam e declaram princípios de igualdade e inclusão para todos, no entanto, constata-se que não passam de leis escritas no papel e declarações de “boas vontades” que, na prática, não têm a mínima incidência na realidade existencial dos ciganos. Muitas vezes são órgãos ligados ao Estado e as autarquias a promoverem a discriminação e exclusão.
A União Europeia, na sequência da “Primeira Cimeira consagrada à Comunidade Cigana”, realizada em Setembro de 2008, fez a promessa de incluir a comunidade cigana na agenda social, adoptada em Julho de 2008. Resta saber se não estamos perante mais uma série de iniciativas dispendiosas, centradas na organização de cimeiras e seminários, cheios de discursos intelectuais e estéreis, que em nada contribuem para mudar a realidade ou as políticas dos governos dos países membros, concretamente do governo português.
O mundo actual vive uma crise profunda que, à viva força se quer proclamar apenas como crise económica mundial. Na verdade, a crise económica é fruto de uma profunda crise ética e moral, que perpassa o mundo ocidental e que se vem arrastando há largos anos. A verdadeira crise começa com a inversão de valores que atirou o valor do ser humano para o fundo da tabela, daí poder ser marginalizado, excluído ou até mesmo descartado como se fosse algo inútil. O mundo terá capacidade de ultrapassar todas as crises e de incluir no seu seio todos os homens e mulheres, respeitando a sua dignidade humana e o seu lugar único na história da humanidade, no momento em que houver uma consciência colectiva das raízes profundas que provocam a exclusão e marginalização de tantos seres humanos e, de uma forma particular, da comunidade cigana e que provocam o empobrecimento da maior parte da população mundial, consequência duma má distribuição da riqueza e do aproveitamento por parte de poucos daquilo que é de todos.
A grande maravilha de Deus Criador foi ter feito todos os seres humanos iguais em dignidade mas totalmente diferentes uns dos outros. Para que realmente haja uma verdadeira inclusão de todos, e da comunidade cigana em particular, é necessário promover uma mudança de mentalidade, é necessário partir para uma aceitação das diferenças étnicas, culturais e religiosas, uma aceitação do outro na riqueza do seu ser. A comunidade cigana continuará a defender-se para não perder a sua identidade sempre que a sociedade maioritária a quiser moldar à sua imagem e semelhança. Se não forem criadas verdadeiras pontes de respeito pela diversidade identitária, continuaremos a assistir a fenómenos de exclusão e marginalização que em nada dignificam a humanidade.
A Comunidade Cigana na Europa é constituída por mais de dez milhões de pessoas. É a maior minoria étnica que vive no velho Continente; em Portugal, vive há mais de quinhentos anos. A sociedade europeia tem obrigação de fazer um esforço contínuo de criar pontes de convergência de aproximação e inclusão dos ciganos, anulando tudo o que é rejeição que vota à marginalidade e despe os ciganos de toda a sua dignidade de pessoas e de seres humanos.
P. Frei Francisco Sales Diniz, O.F.M.