El País – semanal (29 set)

Ciganos do século XXI

Identidade, valores e sentido de pertença a um grupo. Para além disso, muitos deitam abaixo estereótipos e deixaram de se isolar. Esta é a história de quem reclama com naturalidade a sua integração na sociedade espanhola.

 

 

O artigo apresenta vários ciganos que decidiram ter uma vida diferente da dos seus antecessores, como é o caso de Sara Giménez, uma cigana de 35 anos que é a primeira advogada cigana de Aragón. Dedica-se ao direito civil, penal e administrativo, mas quando se deu conta de que um primo queria alugar uma casa e não conseguia porque era cigano, começou a dedicar-se a casos semelhantes para “lutar pela igualdade”. “Já chega de tanto discriminar e estigmatizar!”, diz Sara.

António Maya e Belén Palacios dizem que tiveram de se esforçar a dobrar por serem ciganos. António diz que “a palavra cigano possui uma conotação negativa e dá trabalho deitá-la abaixo”. “As coisas mudaram um pouco, mas só um pouco”.

Valentim Suárez, um cigano de 65 anos, de Mérida, dedicou parte da sua vida a promover a cultura cigana. Considera que os ciganos, pouco a pouco, têm vindo a mudar alguns dos seus hábitos, mas que este processo “representa um dilema: progredir deixando de ser cigano e não progredir para continuar a sê-lo”. E conclui que há que adaptar-se às mudanças, sem deixar de ser cigano. Acrescenta ainda que “com o aumento de jovens (ciganos) universitários está a aparecer um novo perfil a favor da convivência. Agora há, digamos, uma nova maneira de ser cigano”. Belén trabalha numa perfumaria. Ao princípio não disse aos colegas que era cigana, mas um dia em que estavam a dizer mal dos ciganos, disse-lhes “eu sou cigana”. A filha mais velha foi discriminada e teve que ludar de escola. Belén diz: “é pena que ser cigano ainda hoje te prejudique, não?, que te julguem antes de te conhecer”.

Vingança, brigas, drogas, machismo são palavras que acompanham a cobertura mediática sobre a comunidade cigana: não são uma visão falsa mas sim incompleta e, por isso, ditaram séculos de discriminação que não facilitam a sua integração. Segundo a Fundación Secretariado Gitano (FSG), dos 750.000 mil ciganos que existem em Espanha, 70% dos maiores de 16 anos são analfabetos, 36% estão desempregados, 12% vivem em casas deficientes e 4% em barracas. A maioria não está obstinada em formar guetos nem se nega a conviver com o resto da sociedade. 24% dos ciganos que trabalham são autónomos, ou seja, têm o seu próprio negócio.

Isidro Rodríguez (IR) não é cigano, mas trabalha há duas décadas na FSG onde procura que os fundos sociais da UE tenham impacto na inclusão dos ciganos. IR considera que em Espanha os ciganos estão melhor porque têm protecção social e programas para diminuir as desigualdades; recorda ainda situações de discriminação que têm ocorrido contra os ciganos na Hungria, em Itália e em França. IR afirma que o que os ciganos precisam para mudar são oportunidades e acrescenta: “ a comunidade cigana avançou muito, mas parece que a sociedade espanhola ainda não se deu conta disso. Hoje os ciganos são parte do quotidiano”.

Juan de Dios Ramírez Heredia, presidente da Unión Romaní, uma ONG que em Espanha e noutros países se dedica ao reconhecimento da cultura cigana, refere que já ocorreram grandes avanços nas áreas da educação, das “liberdades públicas e no bem estar social”, porém, afirma que “a grande batalha é contra a abstenção escolar” e contra os estereótipos que reforçam a imagem negativa dos ciganos. A FSG estima em 40.000 os ciganos chegados à Península Ibérica do Leste da Europa. O artigo conta o caso de Hristo Sttoichkov, que veio da Bulgária e começou a trabalhar num restaurante de Madrid. Conheceu Mariya que não é cigana, com quem vive. Hristo refere que em Espanha ser cigano é menos mal do que na Bulgária. Também Gheorghe e Alina, ciganos romenos, desempregados, vivem num edifício da Cáritas e vivem do rendimento mínimo. Referem que são ciganos, mas não são como os ciganos da TV: não roubam, nem matam, nem pedem esmolas. María Luisa Cortês é divorciada, algo que não é bem visto na comunidade cigana, mas ela considerou mais importante a sua tranquilidade e a das suas três filhas do que as aparências.