NEVIGAG (fogo novo em Romani (órgão do CCIT), Dez 05

EM PORTUGAL: JOVENS MEDIADORES
NEVIGAG (fogo novo em Romani (órgão do CCIT), Dez 05
Depois de cerca de trinta anos de convívio e trabalho com famílias de etnia cigana em diversos bairros de Lisboa e dos concelhos limítrofes, constatámos que embora a instituição escola já seja por elas conhecida, não suscitou ainda uma adesão plena por parte dos pais, como elemento fundamental para a preparação dos seus filhos para a vida adulta. Em termos práticos, isto traduzia-se numa situação nítida de desvantagem dos jovens ciganos, frente aos não ciganos, no que respeita à formação escolar obtida. Constituindo a comunidade cigana uma sociedade antiga e conservadora, duma maneira geral os pais preocupavam-se fundamentalmente em educar os seus filhos/filhas para que viessem a ser bons ciganos/boas ciganas quando adultos.
Ora do modelo de referência do “bom cigano”, não consta de forma nenhuma como requisito o ser escolarizado. Então, mesmo quando a criança cigana vence a grande prova que é a sua inserção na “escola não cigana”, a sua assiduidade é fraca, tanto ao sabor da sua adesão à frequência, como por motivos de ordem familiar, nos quais se incluem a actividade profissional dos pais, ou acontecimentos que exigem a presença de todos os elementos da família.
Estas ausências vão ter como consequência um fraco aproveitamento escolar. Finalmente, um outro facto prejudica definitivamente os adolescentes e jovens – o abandono escolar, antes de concluída a escolaridade mínima obrigatória, sendo a maioria das raparigas retirada quando atinge a puberdade e deixando a família a decisão de se manter ou não aos rapazes, não os incentivando a prosseguir.
Internamente, aliás, nenhum pai/mãe se sente ainda constrangido por apresentar, nas negociações preliminares para o casamento, o seu filho ou filha analfabeto/a.
Tudo isto tem como consequência que a sociedade cigana, que funciona bem internamente, seguindo as suas leis ancestrais, que ditam as normas obrigatórias de conduta, experimenta grandes dificuldades como parte integrante da sociedade civil portuguesa.
De resto, verifica-se uma ausência total de elementos da etnia em cargos de decisão, tanto no campo jurídico como nos da saúde, da educação, ou no administrativo.
O mesmo acontece na vida política e partidária, da qual a maioria se alheia.
Cidadãos portugueses como quaisquer outros e por isso, sem qualquer referência na Constituição, são no entanto facilmente identificados como ciganos, sendo alvos de preconceitos só pelo facto de pertencerem à etnia.
Surgiu-nos então a ideia de ministrar cursos de mediadores socio-culturais a elementos ciganos jovens adultos respeitados no meio cigano, com gosto de aprender, capacidade de informar e intervir.
Organizámos cursos com a duração de dois anos, ao fim dos quais obtiveram simultaneamente o diploma de escolaridade mínima obrigatória (9º ano), que completavam e o de mediador socio-cultural.
Como tal, exigia-se que tivessem adquirido diversas competências profissionais, tais como:
– Capacidade de mediar, no sentido de prevenção e resolução de conflitos culturais.
– Capacidade de promover a comunicação, entre profissionais e utentes de origem cultural diferente.
– Aptidão para prestar assessoria aos utentes, na sua relação e diálogo com profissionais, serviços públicos e privados.
– Prestar apoio a populações em dificuldade, tanto ciganas como não ciganas, assim como informação em diferentes áreas, tais como saúde, habitação, justiça, etc., no que respeita a direitos e deveres.
– Realizar dinamização comunitária, partindo da valorização da cultura de origem.
Até ao presente formámos 25 indivíduos, 17 homens e 8 mulheres.
Conseguiu-se que a figura de mediador socio-cultural fosse reconhecida como válida pelos Despachos Conjuntos 304/98 e 942/99 dos Ministérios da Educação, do Trabalho e da Solidariedade.
Falta no entanto um passo importante para todos os que desejam desempenhar as funções de mediador a tempo inteiro, em qualquer das áreas em que são necessários – a criação da carreira profissional.
Até agora têm sido colocados anualmente ao abrigo de programas ocupacionais, pois a sua presença e acção têm sido reconhecidas como necessárias e úteis, em escolas do ensino básico. Excepção para dois, respectivamente colocados um no Instituto de Segurança Social e outro num hospital pediátrico de Lisboa.
A terminar, dou a palavra a uma das mediadoras que já trabalhou como tal, quatro anos numa escola. Com 28 anos, Maria Cipriana Ramos respondeu-me à questão sobre as funções que tem exercido, dizendo:
 Fiz visitas domiciliárias para levar informações e melhorar a assiduidade das crianças; vigilância de recreios, refeições e biblioteca, como presença adulta cigana, incentivando as crianças a uma boa convivência; intervenções nas questões entre famílias e escola, no sentido de facilitar o diálogo e melhorar as relações recíprocas.
À pergunta sobre as maiores dificuldades sentidas, afirmou:
 O mais difícil foi entrar e actuar num bairro desconhecido, sendo mulher cigana e solteira
Como êxitos, assinalou:
 Fui aceite e estimada pelas famílias, embora a maioria não acedesse à prossecução dos estudos por parte das meninas, a partir dos doze anos e senti-me bem na escola, respeitada como pessoa e como profissional.
Lisboa, 2005-09-27
Drª Fernanda Reis – Sec. Diocesano de Lisboa da Pastoral dos Ciganos