Rádio Renascença (29 nov)
Francisco Monteiro (FM) mudou de vida há 16 anos, quando se reformou e decidiu colocar-se à disposição de um amigo, Padre Filipe Figueiredo, onde começou por ajudar a fazer uma exposição internacional sobre a cultura cigana, em 1997. “Desde então estou a trabalhar como voluntário com os ciganos”, refere FM, Diretor Executivo da ONPC.
Afirma que “a discriminação dos ciganos prolonga-se há 500 anos e tem o efeito contrário de criar nesta comunidade um sentimento de auto-proteção e de rejeição da sociedade maioritária onde se insere.”
Sublinha que a comunicação social tem feito um caminho notável contra a estereotipagem dos casos com ciganos. Antigamente, quando acontecia algo, dizia-se logo que a pessoa era cigana; hoje em dia ainda vão dizendo, mas neste momento divulgam-se notícias sobre bairros onde sabemos que vivem muitos ciganos e eu tenho de ligar para lá para saber o que sucedeu, porque a comunicação social não associou as coisas”.
FM salienta que a comunidade cigana não é machista nem subsídio-dependente”, já que a maioria sendo pobre vive do que vende. Quanto à cultura afirma que tem pendor matriarcal. Contudo, aceita que existem problemas “como deixarem que as crianças faltem à escola porque lhes apetece”. Afirmando a importância de haver um equilíbrio das diferenças no trabalho com os ciganos, afirma que “eles (ciganos) não querem ser integrados, mas pretendem ser incluídos”.
Há alguns anos, muitos ciganos tornaram-se evangélicos quando uma igreja dirigida especificamente à comunidade chegou a Portugal, “a Igreja de Filadélfia Cigana de Portugal, em que os pastores são ciganos, os cânticos são ciganos e as regras são ciganas.” “É preciso que se diga que a Igreja Evangélica teve uma influência enorme e positiva entre os ciganos para os afastar do álcool, da droga e de outros procedimentos errados. Foi muito importante.”
Embora a maioria da comunidade não seja católica, a Pastoral dos Ciganos tem uma relevância evidente: “quando defendemos os direitos dos ciganos, quando há um problema e nós o denunciamos, estamos a dar um testemunho nosso, cristão, perante uma população que é muito carente, que está entre aquela população que o Papa Francisco menciona como os mais marginais.” “Estamos com eles, a ajudá-los a serem eles próprios, a reagirem contra a marginalidade. Isto é o cristianismo na sua quinta-essência”. E “há muitos ciganos que professam a fé católica.”
FM sente que que há uma adaptação por cumprir. “A liturgia em África é muito africanizada. As liturgias católicas de rito oriental também são próprias. Não é difícil fazer liturgias adaptadas a ciganos”.