Público (18 Set)
Escola cria turma só de crianças de etnia cigana por Natália Faria
Turma tem 14 alunos de etnia cigana, com idades entre os 7 e os 14 anos e com historial de chumbos e absentismo. Pais mostram-se indignados.
Na Escola Básica do 1º ciclo dos Templários, em Tomar, foi criada uma turma composta exclusivamente por alunos de etnia cigana. Os pais estão indignados e consideram a atitude discriminatória. “Isto é desrespeito pela etnia. Ainda se fossem todos da primeira classe, podia fazer algum sentido, mas juntarem estes miúdos todos só porque são ciganos é encostá-los a uma parede para não aprenderem nada”, afirma António Pascoal (AP), pai de um dos alunos.
AP tem um filho de 11 anos a frequentar o 3º ano e reconhece as dificuldades no percurso escolar. “O meu filho chumbou por causa das faltas, mas isso é porque tem problemas respiratórios, fica doente. Mas se anda na terceira classe devia estar com alunos do mesmo ano. Como é que um professor vai conseguir ensinar ao mesmo tempo quem entrou este ano na escola pela primeira vez e quem já tem 14 anos?”
O director do agrupamento, Carlos Ribeiro (CR), nega qualquer intuito discriminatório por detrás desta concentração de alunos de etnia cigana. “Criámos uma turma mais pequena com meninos que são repetentes”, com o objectivo de “tentar precisamente que eles progridam e não fiquem a marcar passo, como tem acontecido em anos anteriores”. Reconhece que são todos de etnia cigana, mas afirma que na EB1 dos Templários continua a haver alunos de etnia cigana integrados em turmas ditas “normais”. “Neste caso procurámos juntar os alunos que, independentemente das idades, estão ao mesmo nível em termos de aprendizagem. São alunos com muitos problemas de assiduidade, é difícil mantê-los na escola, e a ideia é apostar neles e tentar que tenham sucesso, porque normais, é que eles avançaram na idade física mas em termos de aprendizagens não evoluíram. ”
CR reconheceu que não foi dada qualquer explicação prévia às famílias. “Nunca nos ocorreu que as pessoas pudessem entender esta situação como tendo algo de racista”.
Maria José Casanova (MJC), socióloga, garante que a este tipo de soluções se associam sempre resultados desastrosos e mostra-se, por princípio, “completamente contra” este tipo de agregação. Um dos problemas é que “muitos professores já olham para as crianças ciganas com o preconceito de que elas não vão conseguir aprender os conhecimentos científicos normais”. “Não devemos esquecer que a escola é um espaço hostil para as crianças ciganas, porque funciona segundo regras e normas que a criança desconhece” alerta MJC “adiantando assim uma explicação para o elevado grau de absentismo entre estes alunos.” Com progenitores quase sempre detentores de uma “baixíssima escolarização”, “tem de haver da parte do corpo docente uma compreensão para este fenómeno”. “As turmas só de crianças ciganas são uma realidade em muitas escolas. E muitas vezes as escolas fazem isso até com um sentimento de generosidade, sem intenção de discriminar.” “Não é ilegal” “Apesar de a lei antidiscriminação racial proibir turmas só de uma minoria, ressalva ao mesmo tempo que essa constituição é possível se for para melhorar a situação destas minorias”, diz MJC.