Continente #147 (mar)
Aos leitores
O editorial desta revista brasileira é dedicado aos ciganos. Reconhecendo a fidelidade dos ciganos à sua cultura, eles “precisam estar no mundo como os demais. Então, assumem os comportamentos de contemporaneidade, como a comunicação virtual e a formação académica”. A jornalista Danielle Romani e a fotógrafa Roberta Guimarães passaram cinco meses em torno de grupos que residem em pequenas cidades do interior de Pernambuco, da Paraíba e do rio Grande do Norte. Este grupo étnico que valoriza “a velhice, como lugar de reconhecimento e respeito” “parece provocar em igual medida a desconfiança e o fascínio dos não ciganos”. O editorial conclui que “muitas das (más) qualificações que lhes imputamos são fruto de anos e anos de ideologização”.
Especial
Ciganos
Cigano: povo ainda à margem, mas em busca de legitimação
O artigo refere que, apesar de os ciganos terem a mesma origem, dividem-se em três grandes grupos: os calon, os rom e os sinti. Tal como qualquer cultura/povo também os ciganos evoluíram. Renato Athias, antropólogo e director do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Etnicidade da Universidade Federal de Pernambuco (Brasil), refere que “apesar de a maioria dos ciganos não andar nas caravanas, em mulas, ou de saias compridas, continuam sendo autenticamente ciganos. … Apenas se adaptaram às transformações sociais, mantendo a integridade das suas tradições.” E destaca-se na sua cultura: “o apego à família, em especial às crianças e aos mais velhos; o idioma calé (no caso dos calons), o temor de perderem as suas tradições e a convivência constante com a hostilidade.”
A reportagem assistiu a um casamento cigano em Sousa (PB), em que a cerimónia decorre numa noite de lua cheia e oferece uma vasta simbologia da tradição: “a noiva vestida de vermelho, troca de punhais, pão, sal e vinho, quebra de taça de cristal, leques, lenços, moedas e dança típica, em que o casal não se toca fisicamente, apenas com o olhar.” O casamento foi um marco de ciganidade. O casamento não foi acertado na infância, como ocorria no passado. Aconteceu normalmente para felicidade das famílias.
José Gonzaga Carnaúba, 47 anos, líder calon de Macau, Rio Grande do Norte, diz: “o progresso não tem como ser evitado, eu sei, e se a gente não for um cigano forte, a sociedade nos engole”; e arrisca fazer um prognóstico sobre o futuro: “os ‘meninos’ vão casar-se cada vez mais com os não ciganos e envolverem-se com estudos e com o mercado de trabalho”. Monaliza, filha da cartomante Tânia, diz: “a minha realidade é entre dois mundos: os calons e os gadjons. Minha mãe acha que, se estudar, vai quebrar a tradição. Mas os nossos jovens vão acabar na escola. Isso nos ajudará a conquistar direitos. Com ou sem diploma sou cigana.”
José Kleber Soares, de 43 anos, líder de um rancho de 30 pessoas, lamenta que “ninguém emprega cigano”. “A produção artística está presente em vários ciganos encontrados”, quer na música, quer na poesia, sobretudo em Itambé. Tiago, 22 anos, é músico profissional – canta e é compositor – acrescenta: “Temos poucas probabilidades, mas acredito no futuro”.
Europa: Eterna sensação de ser “intruso”
Desde a Idade Média até aos dias atuais, esses grupos étnicos sofrem barbáries e humilhações, após terem saído da Índia, seu país de origem
Apesar de estarem em alguns países há séculos, os ciganos parecem carregar um estigma: “o de nunca serem aceites onde estão e por aqueles que os rodeiam”.Nem os antropólogos, pesquisadores e historiadores conseguem apontar razões satisfatórias para esta intolerância. O antropólogo Frans Moonen, no seu livro “Anticiganismo: os ciganos na Europa e no Brasil”, fala sobre as perseguições contra os ciganos entre os séculos XV e XX, invocando motivações políticas e económicas, sobretudo relativas à divisão de terras e aos empregos; as suas “actividades concorriam com as profissões urbanas, como as de ferreiro, caldeireiro e artesão”. A ameaça da concorrência estendia-se aos artistas e aos mendigos.
Os ciganos foram mortos e perseguidos pela Inquisição por não serem cristãos. “os rom mantiveram maior pureza dos genes” devido ao casamento endogâmico, enquanto os calons “demonstram maior nível de miscigenação”.
Oriundos do norte da Índia, a palavra cigano deve-se a que os ciganos diziam que vinham do pequeno Egito, na Grécia e não no Egito, daí a palavra gypsies que originou a palavra ciganos. Em 1734, na Prússia podiam ser presos e mortos.
No século XX, ciganos e judeus foram os alvos preferenciais dos nazis. Em 1927, ainda antes da criação de leis antijudaicas, os ciganos eram obrigados a andar com um documento de identificação; pouco depois, foi criado o Serviço Central de Combate à Praga Cigana. Em Dezembro de 1942, Himmler, comandante das SS, ordenou o envio de todos os ciganos alemães para Auschwitz – Birkenau. Estima-se que na Segundo Guerra Mundial foram mortos entre 220 e 500 mil ciganos. Apesar de em 2012 ter sido inaugurado em Berlim, um memorial aos ciganos vítimas do Holocausto, as autoridades alemãs não revogaram as políticas de deportação no país. E, na França, François Hollande manteve a política segregacionista de Nicolas Sarkozy.
Os ciganos e o “darwinismo social”, por Renato Athias
A imagem que as pessoas ainda hoje têm dos ciganos vem do imaginário e contribuiu para o “acirramento das perseguições aos ciganos”. Bartolomeu Campos de Queirós, no seu premiado livro “Os Ciganos”, apresenta a temática da ambiguidade de sentimentos que os ciganos despertam, e como a Europa aprendeu a ver os ciganos “como uma categoria social, com história e cultura bem específicas”. Presume-se que houve deportação de ciganos para o Brasil até ao séc. XVIII; havendo conhecimento da sua presença já em 1574. “Em 1603 a Câmara Municipal de S. Paulo de Piratininga concedeu licença à abertura de uma casa comercial… que recebeu a alcunha de cigana Francisca Roiz. “Foi o primeiro comerciante do Estado de S. Paulo, reforçando o protagonismo da mulher cigana no grupo. “O viajante francês Gendrin que morou no Rio de Janeiro entre 1816 e 1821, referiu-se em cartas às ciganas “vendedoras ambulantes de escravos africanos, as quais percorriam as ruas da cidade”. Assassínio de ciganos foi atribuído a Tiradentes. “Existe um desconhecimento mútuo e uma intolerância nas relações entre ciganos e não ciganos”. A ciganologia está relacionada com a Antropologia Cultural, apoiada na História e na Linguística; pensa-se que surgiu em 1888 em Inglaterra, com o lançamento da revista Gipsy Lore Society. Como antropólogo, interessa compreender “o processo de etnicidade cigana nos diversos contextos brasileiros.
Brasil: mestiçagem também cigana
A propalada miscigenação nacional ignora ou suprime essa etnia que, assim como outras, foi trazida maciçamente ao país em fluxos migratórios. Para se “compreender a cultura brasileira na sua totalidade, é preciso investigar as contribuições dos ciganos para as artes, a toponímia, os hábitos, enfim, para a vida tradicional do país”, afirmou Cristina da Costa Pereira.
Com a chegada da família real ao Brasil, em 1808, alguns ciganos foram contemplados com o cargo vitalício de oficial de justiça e artistas ciganos participavam em eventos reais. Em 1818, no casamento de D. Pedro com a princesa Leopoldina, os ciganos foram convidados a animar as festas. “Os dançarinos são vistoriados: flores, fitas, aplausos, eles conquistam pela magia plangente de seus instrumentos, pela força de suas danças.”
Os calons chegaram ao Brasil desde o início; consta que os Rom (do leste Europeu) só chegaram a partir de 1865, após o fim da escravidão cigana na actual Roménia. Na versão de Rodrigo Corrêa Teixeira, o primeiro rom chegou a Minas Gerais em 1830, vindo da Boémia (antigo império austro-húngaro), e foi o bisavô do presidente Juscelino Kubitschek. Entre outros descendentes famosos está a poetisa mineira Cecília Meireles que disse da sua etnia: “O meu povo não quer ir nem vir. O meu povo quer passar”.
Só na2ºmetade do século XIX os rom começaram a ir em grupo para o Brasil, estando divididos actualmente em cinco subgrupos, concentrados no sul e no sudeste, muitos com bom nível económico e cultural.
Sagrado: Deus, a natureza e os antepassados
Sem uma religião específica, os calons, sintis e roms geralmente aproximam-se das crenças das comunidades em que estão inseridos
“Em cima, o céu, em baixo, a terra, no meio, os ciganos” diz o velho ditado. Embora a religião dos calons, sintis e roms seja, na maior parte das vezes, assimilada à da comunidade com a qual se relacionam, “existe neles algo que nos escapa, e que lhes é intrínseco, peculiar. Talvez porque a relação secular com a natureza os dotou de uma religiosidade latente, que não foi construída em templos, igrejas ou mesquitas, mas nas caminhadas nómadas, nos acampamentos e paisagens abertas, nos sertões e catingas, pelo verde das florestas e das montanhas, pela força do sol, da chuva, dos rios, ventos e estrelas”. Para os ciganos, “Deus está no coração, nos amigos, na natureza”. A morte de um cigano deve ser tratada com grande seriedade: quando morre um cigano, os parentes mudam de lugar, tiram as fotografias da vista e não pronunciam o nome do cigano falecido durante meses, fazendo luto por grande período, em que deixam de dançar, cantar, festejar. A cartomancia e quiromancia têm-lhes sido inerentes, mas não existem informações de quando e como aprenderam esses métodos divinatórios.
A crença em Santa Sara Kali é mais forte entre os ciganos europeus e os das regiões mais ao sul do Brasil. Sara, ou a santa negra, foi escrava egípcia de uma das três Marias (Madalena, Jacobé ou Salomé) e, juntamente como elas, foi atirada pelos judeus numa barca sem remos ou alimentos. Mas existem devoções de outros santos. “O sincretismo religiosos brasileiro fez com que os ciganos chegassem à umbanda” (arte de curar NR) e ao candomblé (ritual religioso ligado ao culto da natureza NR).
Direitos: desconhecimento leva à invisibilidade
Diferentemente de outros povos minoritários brasileiros, os ciganos ainda não foram reconhecidos na Constituição Federal nem nos recenseamentos
“É como se os ciganos fossem «invisíveis»”. Não possuem direitos adquiridos como minoria étnica, nem política específica para as suas comunidades. Não são citados em artigos da Constituição Federal de 1988 nem constam em censos. Políticas para reconhecimento da identidade desta etnia, estão a ser discutidas, nomeadamente, pelo Conselho de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado Federal, para elaboração de um Estatuto dos Povos Ciganos, a ser regido pela Lei Esmeralda que ainda não foi homologada. Um Decreto de 2007 “criou a Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais que engloba ciganos, quilombolas, índios e afins.” Por decreto presidencial o Dia do Cigano é comemorado desde 2006, no dia 24 de maio, dia do culto de Sara Kali, mas a data é questionada por grupos ciganos, em especial, por protestantes e muçulmanos e até entre os católicos, pois Sara Kali não é aceite unanimemente. A data atesta o desconhecimento sobre a heterogeneidade e diversidade existentes entre as comunidades ciganas brasileiras.
A educação é um dos pontos mais polémicos e urgentes. “Para os ciganos, é inadmissível que as suas línguas, consideradas secretas e inacessíveis, sejam repassadas para outros ciganos por um mestre não pertencente aos grupos”. O ‘Projecto de Pesquisa e Desenvolvimento Cultural e Étnico do Rio Grande do Norte’ com o ‘Mova Brasil’ propõe-se contratar professores ciganos para aulas também em caló.