Expresso – Atual (12 jan)
Exposições: As várias boémias
Ciganos e boémios para todas as estações numa exposição excepcional em Paris (e proximamente em Madrid)
Para muita gente, o boémio é o “sem eira nem beira”, “que assusta, fascina e inspira. Boémios são os ciganos, o judeu errante…” “Vivem a milhas das convenções sociais (e morais) burguesas e desfrutam de uma invejável liberdade…”.
“Boémios” é uma exposição no Grand Palais de Paris, onde está patente até 6 de fevereiro, indo depois para Madrid, para a Fundácion Mapfre, até 6 de maio.
Os ciganos oriundos do norte da Índia, a quem também chamavam “egípcios” (o inglês gypsy é uma deturpação de egípcio), eram vistos como gente estranha, com poderes adivinhatórios, como no quadro de Georges de La Tour (c. 1630), que mostra uma cigana a ler a sina. “A confusão fonética ou geográfica estendeu-se à Boémia do Sacro Império Romano e à Roménia: donde os romani se chamarem boémios. Sem pouso certo, perseguindo uma vida errante, ciganos, egípcios ou boémios – a ‘tribo profética’ de Beaudelaire – tornaram-se figuras de referência na arte ocidental.” Começando em Leonardo da Vinci (‘cinco cabeças grotescas’) até ao séc. XVIII, os ciganos eram vistos como músicos e bailarinas. Picasso veio a retratá-los como saltimbancos tais como os que, no início do séc. XX, percorriam as ruas de Lisboa. “Os ciganos tomaram conta da música, desde “la Bohémienne” (1753) de Rinaldo Di Capua, até à ópera “Mignon” inspirada em Goethe, até à Zíngara Azucena em “Il Trovatore” de Verdi; “a libertação boémia atingiu o seu apogeu na “Carmen” (1847/75), a novela (e ópera) da gitana que fala várias línguas, canta, dança e toca castanholas, “e que na famosa habanera proclama que ‘o amor é filho de uma vida cigana’”. Seguem-se Puccini, Liszt e, já recentemente, “Charles Aznavour fez de ‘La Bohème’ (1966) uma das suas canções de fetiche. Também na literatura, os ciganos estão presentes, nomeadamente através de ‘La Gitanilla’, de Cervantes, em que “Preciosa, a ciganita do título, se apaixona por um nobre, que, para provar o seu amor por ela, se torna cigano”. Seguem-se Victor Hugo, o citado Beaudelaire e, novamente na pintura, Courbert, cuja obra “La Bohémienne et ses enfants” (1853/54) lembra a Mãe Coragem de Bertolt Brecht.
O cinema também não é esquecido nesta exposição, recordando-se Leni Riefenstahyl que “recrutou centenas de ciganos para figuração em ‘Tiefland’, a mais cara das fitas nazis, rodada entre 1941 e 1945.” Esses ciganos “vieram dos campos de concentração e acabaram em Auschwitz. Foi preciso esperar pelos filmes de Emir Kusturica para vermos os ciganos com olhos renovados”.