Um bairro atrás do muro
Um bairro atrás do muro
Segregação – Como, em Beja, 50 famílias ciganas foram isoladas do resto da cidade
O Bairro das Pedreiras fica num lugar insípido e escondido onde não passam carros. Separado do parque industrial da cidade e da fábrica de rações A. Cano por um muro de três metros de altura e um quilómetro de comprimento, o Bairro das Pedreiras parece um condomínio forçado dos ciganos. Os clientes da fábrica entravam nela sem dar pelos ciganos. Estes são 50 famílias, mais de 200 pessoas; facilitaram o acesso arrombando o portão de acesso de emergência. Inicialmente esteve pensado para ser um “parque nómada” da cidade, um estacionamento para campistas permanente; depois ficou como Bairro das Pedreiras, com moradias todas iguais, de três assoalhadas encolhidas, tectos periclitantes e canalizações incontinentes. Patriarcas ciganos chamam-lhe “Cemitério dos vivos”, outros “uma prisão”.
Os ciganos sentem-se isolados. Estão a três quilómetros do centro e não há transportes públicos (a não ser o autocarro que leva os miúdos à Escola); vão a pé para a cidade que tem medo deles. “Os táxis recusam serviços. Os correios não entregam cartas. Os contentores do lixo são esvaziados uma vez por semana. O canalizador vem com escolta policial. Parece uma ilha de condenados.” No bairro existe um terreiro mal tratado, inclinado e que faz fronteira com o canil municipal. “A porcaria dos cães vem cá parar toda abaixo, as crianças estão sempre doentes”, queixa-se o Joaquim, homem de 94 anos. As casas 49 e 50 têm uma barragem de terra para conter o esgoto do canil quando é trazido pelas chuvas.
Estas famílias viviam em barracas no Carmo Velho (denominado oficialmente Bairro da Esperança) onde foram construídos apartamentos que não se conseguiram vender. O estigma passou para a fábrica de rações, cujo gerente lamenta que não tenham sido tidos nem achados logo desde o início. Agora também é a A. Cano que quer ser realojada.