Nem a morte mata a discriminação


Expresso (17 Jul)
Nem a morte mata a discriminação
Há paróquias que recusam velórios de famílias de etnia cigana ou cobram mais pelo aluguer das capelas
Algumas capelas recusam alugar as capelas mortuárias para velórios de pessoas de etnia cigana ou cobram aos familiares mais do que o preço da tabela. A hierarquia da Igreja “condena veementemente” esta prática, mas admite que existe. Frei José Fernando, pároco de São Domingos de Benfica, admite que “há várias paróquias em Lisboa que se recusam a acolher corpos de ciganos. Fecham mesmo as portas. Nós aceitamos todas as pessoas, mas às vezes temos de subir um bocadinho os preços porque as capelas ficam num terrível estado de sujidade. Os ciganos são muitos, enchem isto tudo e as famílias de outros falecidos não querem vir para cá quando sabem que vai haver um velório cigano”. O problema é bem conhecido entre as agências funerárias, que já estão habituadas aos entraves criados por algumas paróquias.
Nuno Monteiro, Presidente da Associação Nacional das Empresas Lutuosas, afirma conhecer “várias paróquias que cobram mais pelos velórios de ciganos, obrigando as famílias a alugar duas capelas, em vez de uma, para não terem ninguém ao lado. É pura discriminação”.
No caso de João Silva, o pároco da Ajuda, Francisco dos Santos, admite que “é prática da paróquia há já alguns anos cobrar sempre aos ciganos o aluguer das duas capelas mortuárias” existentes. “Não temos nada contra eles, mas têm um modo de estar que é incompatível com o das outras pessoas, sobretudo numa situação de luto”. A Pastoral dos Ciganos também está a par do caso, que está a ser averiguado pelo Secretariado Diocesano da Pastoral dos Ciganos de Lisboa. Francisco Monteiro declara que “não é uma situação nova. Já recebemos algumas queixas, não só em Lisboa como noutros pontos do país. Os ciganos são cristãos iguais aos outros e qualquer forma de discriminação é inaceitável e contrária à lei da Igreja. A hierarquia condena veementemente este tipo de situações”.