Portugueses não gostam de ciganos
Expresso (2 Ago) (Reportagem de Mónica Contreras)
Portugueses não gostam de ciganos
Sete em cada dez portugueses convivem mal com minorias étnicas
“É chocante e representa a hipocrisia dos portugueses”, é a reacção de Francisco Monteiro (FM), Director Executivo da ONPC, à sondagem do Expresso, realizada após os acontecimentos da Quinta da Fonte. O estudo revela que apenas 15% dos portugueses convivem “bem com todas” as minorias. 76,5% afirmam ter dificuldades em dar-se com etnias diferentes, mesmo que sejam portugueses e apontam os ciganos como a comunidade com que pior se relacionam, à qual se seguem os africanos e os árabes.
Para Daniel Rodrigues, responsável há mais de 20 anos pela Pastoral dos Ciganos da diocese de Aveiro, a “maior parte da sociedade vê o cigano como há 50 anos”. FM, há 11 anos a trabalhar com ciganos, refere que a falta de conhecimento em relação à cultura cigana, apesar de presente vai para 500 anos, explica o facto de aquele grupo estar no topo do «ranking» dos mal amados. E sublinha: “Não somos multiculturais; só se forem iguais a nós.”
Bruno Gonçalves (BG), cigano de 32 anos e consultor do ACIDI, lê os resultados da sondagem do Expresso como um sinal do racismo existente na sociedade “maioritária”. E define este racismo como “subitl”, exemplificando com empresas que apresentam desculpas para não os empregarem, com a dificuldade que têm em alugar casa e com o facto de nos supermercados serem “olhados com desconfiança pelos seguranças.”
A Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Inter-Cultural desdramatiza os resultados da sondagem considerando que os inquiridos, entrevistados após os acontecimentos na Quinta da Fonte, “estão influenciados pela conjuntura.” Rosário Farmhouse acrescenta que “todos somos preconceituosos e quando não conhecemos fazemos estereótipos, neste caso a partir da televisão”.
BG reconhece que “há um conhecimento muito superficial dos ciganos, que foram muito mal tratados até ao 25 de Abril.” E continua: “talvez isso explique o facto de muitos deles terem medos em relação à sociedade maioritária.” Este cigano que é mediador sóciocultural e que se prepara para frequentar o 1º ano de Sociologia, refere que os pais sempre o obrigaram a frequentar a escola. BG é o fundador da Associação Cigana de Coimbra, em 1999, e aponta como um dos sucessos ter conseguido “baixar de 43% para 13% a taxa de absentismo das crianças.” E acrescenta: “Nós queremos a inclusão, mas sem perder a nossa cultura.” Em relação ao receio de os pais deixarem as filhas irem à Escola tem a ver com um motivo: “Se (as filhas) casarem com não ciganos receiam não vê-las mais.” “O não cigano pode não assimilar o código de honra e valores.”