Sobre a questão cigana, por José Gabriel Pereira Bastos (JB)
Expresso (25 Set)
Sobre a questão cigana, por José Gabriel Pereira Bastos (JB)
A decisão do presidente Sarkozy de expulsar os ciganos não é um caso circunstancial, insere-se numa longa história de racismo e ciganofobia
JB é antropólogo, professor na Universidade Nova de Lisboa e co-fundador do Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas.
JB afirma que a expulsão ‘voluntária’ e remunerada de Sarkozy é uma novidade que, no entanto, já vinha a ser utilizada em Itália por Berlusconi e, mais recentemente, na Dinamarca. A propósito, JB recorda “a negociação política entre Estados, que permitiu à Alemanha condicionar a integração da Roménia na UE à desintegração na Alemanha de mais de cem mil romenos (em grande parte ciganos, mas não só), reenviando-os para as ‘origens’. Uma estratégia de sucesso que levou a Alemanha a reincidir, reenviando para o Kosovo mais de 6.000 ciganos fugidos da limpeza étnica que sobre eles incidiu, estando mais de 12.000 em fila de espera. Na II Guerra Mundial houve “a esterilização forçada dos ciganos, na Suécia e na Finlândia”. A Suécia pediu desculpas nos anos 70, mas a esterilização forçada de ciganos repetiu-se [recentemente NR] na Hungria, Eslováquia e República Checa.
Em relação à indignação de Sarkozy por as suas medidas serem comparadas às “políticas raciais do Governo colaboracionista de Vichy”, JB apresenta um conjunto de medidas que a França tem vindo a adoptar desde 1912 e que visaram sempre a discriminação dos ‘roma’.
Também Portugal é alvo de críticas por parte deste antropólogo que refere que igualmente em terras lusas têm existido actos de racismo, como “Governadores Civis que avisam que vão expulsar os ciganos ou que pretendem que eles abandonem o distrito no prazo de 48 horas, como em Viana do Castelo ou em Faro, milícias populares rondando os acampamentos, comissões de pais que ‘decidem’ não querer crianças ciganas nas Escolas que os filhos frequentam e comissões de moradores que ‘decidem’ que não querem ciganos como vizinhos, com a conivência das autoridades ministeriais e municipais: tudo é possível neste país de ‘brandos costumes’ e de “uma ciganofobia soft, encostando os portugueses ciganos ao precipício social para onde já atiraram os sem-abrigo”.
E descreve sumariamente desde os Reis Católicos de Espanha, as medidas que foram sendo tomadas na Europa para o “projecto genocida de extermínio físico ou cultural dos ciganos”.
Recordando o facto de na Europa os ‘roma’ serem quase todos sedentários, em Portugal, “há que manter que os ciganos são ‘culturalmente nómadas’”, destruindo-lhes as raízes municipais e, como em Beja, criando-lhes um “parque nómada” longe da cidade. Recorda ainda que existem “redes marginais” que se dedicam ao tráfico de drogas e de armas, e que mancham “a reputação de todos os ciganos”. E acrescenta que essa “é a técnica básica do racismo: marginalizar toda uma categoria étnica,… ignorar a diversidade”.
Em relação à afirmação de que “os ciganos não querem trabalhar”, refere que “só quem intencionalmente desconhece a dureza da vida de feirante e os serviços que prestam às populações, a começar pelos próprios ciganófobos, dirá que não trabalham, são até mesmo um exemplo” de empreendedorismo. Relembra ainda que são os “serviços de emprego” que repetem: “que, por mais cursos que façam, nenhum patrão lhes dá emprego em Portugal, recusando-os desabridamente”.
JB salienta ainda que “a ciganofobia inconsciente é mais ingénua”. JB recomenda que se siga a política de discriminação positiva que na Índia foi utilizada para incluir os intocáveis.