Por que não gostam de nós?
Ciganos: A Quinta da Fonte pode ser o ponto de partida para mais manifestações de insatisfação
Por que não gostam de nós?
Os números desconhecidos
Francisco Monteiro teme o alastramento da situação criada pelos conflitos na Quinta da Fonte, se as feridas ali abertas não ficarem sanadas nos próximos dias. FM que está em contacto diário com os líderes da comunidade afirma que “tem de haver forçosamente um trabalho sério entre ciganos, africanos, autarquia, Governo e Polícia.” Os bairros sociais da grande Lisboa, mas também os acampamentos a sul do país são os focos de maior tensão. FM alerta para o “grave problema” do nomadismo forçado no Baixo Alentejo. “A GNR passa a vida a enxutá-los de terra para terra. Isto acontece entre a Vidigueira e Portel. Correm-nos literalmente a pontapé.”
Do lado da GNR há queixas recentes de cercos de grupos de ciganos a pelo menos um posto territorial na região. Fonte policial refere: “Passámos a ter medo de abordá-los na rua.”
Em 2008 existem ainda 4200 ciganos sem residência fixa a circularem pelo país. Alexandra Castro (AC), investigadora do Centro de Estudos Territoriais (ISCTE), afirma que estes são os mais pobres da população cigana.
Nos bancos da Escola sentam-se perto de 10 mil crianças ciganas. Alguns investigadores estimam que haja cerca de 4 mil crianças fora do sistema de ensino.
O Expresso afirma ainda saber da existência de um estabelecimento de ensino, em Évora, onde as crianças são discriminadas pelos próprios professores. “Foram formadas duas turmas do 1º ciclo só com crianças ciganas e o horário destas é diferente do dos alunos não ciganos.” Segundo fonte do meio académico “a hora do recreio não coincide, para eles não se cruzarem com os outros meninos.”
“Embora já haja mais abertura, as famílias não incentivam os filhos a completar os estudos. As raparigas são as mais prejudicadas, mas a ideia de irem para casa mais cedo também parte delas”, afirma a única cigana licenciada em Portugal. Em relação aos homens existem 4 ciganos licenciados e três dos casos “são descendentes de matrimónios mistos”, informa a investigadora Maria José Casa-Nova. E acrescenta: “neste momento, há um rapaz a tirar o curso superior em Lisboa. Até pode haver mais um caso ou outro, mas eles preferem passar incógnitos com receio de não serem aceites.”
Nómadas há 60 anos
AC estudou uma família que foi expulsa por diversas vezes ou se ausentou por conflitos familiares e hoje vive na Marinha Grande onde já tinha vivido 12 anos.