C. Santos não quer vender Mercedes a ciganos

Expresso (4 Out)
C. Santos não quer vender Mercedes a ciganos (capa)
Documento oficial sugere formas de dificultar as vendas e determina penalizações para quem não as conseguir evitar
Um director comercial da C. Santos, um dos maiores concessionários da Mercedes em Portugal, fez um comunicado interno “onde explica formas de dificultar a venda de automóveis a pessoas de etnia cigana.” Segundo o actual director-gerente o funcionário já saiu da empresa e diz que o documento nunca chegou a ser publicado.
Ciganos sem estrelas
Concessionário da Mercedes criou regras especiais para clientes ciganos
Em Novembro de 2001, Pedro Lourenço, até 2004 director comercial da C. Santos, enviou um comunicado a todos os vendedores e directores de vendas, aconselhando-os energicamente a evitar venderem automóveis da marca a pessoas de etnia cigana. O documento cuja existência a empresa nega, chega a propor que a comissão do vendedor seja metade no caso de vender um carro a um cigano. Nele são apresentados detalhadamente os passos a seguir por “todos os chefes de vendas e vendedores”.
Um vendedor explicou que “essas normas não me surpreendem e continuam a ser aplicadas informalmente. … No geral, as complicações com os ciganos não surgem na altura da compra. Querem os melhores modelos, pagam em dinheiro vivo e não falham. O problema está relacionado com as garantias e com a maneira conflituosa como lidam com problemas.” E acrescenta: “os carros andam carregados demais, são transformados, avariam e nós, naturalmente, não nos podemos responsabilizar pelas reparações”.
António Pinto Nunes, presidente de uma associação cristã de ciganos, afirma que “os ciganos pagam. (…) E se houver problemas só têm que chamar a polícia ou apresentar queixa num tribunal. Não é com normas ou regulamentos racistas que se resolvem as coisas.”
Fonte da empresa garantiu não existir “nenhuma discriminação em relação a qualquer etnia ou raça”. E justifica dizendo que os ciganos “são um mercado importante para nós sobretudo no segmento dos comerciais ligeiros.” Baptista da Silva, director-geral diz: “quem me dera que tivéssemos mais clientes ciganos.”
Sapos para afugentar os clientes
Em Alvalade, Campo Grande e também em Beja, comerciantes colocam sapos para afugentar os ciganos; estes, sobretudo os mais velhos associam aquele animal a azar.