Abandono e miséria em dois acampamentos ciganos
Jornal de Barcelos (12 Mai)
Abandono e miséria em dois acampamentos ciganos
Há crianças que passam fome em Barqueiros
Há situações de extrema necessidade e mesmo de fome entre os ciganos que vivem nos dois acampamentos na zona da quinta das Andorinhas, em Barqueiros.
Para Isabel Cristina Miranda, professora e sub-coordenadora da Escola da Lagoa Negra, os ciganos “passam fome… são muito carenciados”. Segundo esta docente, em declarações ao Jornal de Barcelos, as doze crianças que frequentam a Escola são as mais afectadas. “Vivem em situação de necessidade. Vê-se que são crianças muito envergonhadas”, desmentindo que as crianças roubem o lanche aos outros alunos, uma queixa ouvida na freguesia. Neste contexto frisa que “aqui na Escola o comportamento deles é bom. São muito humildes e aqui nunca desapareceu nada, lanches ou materiais”. Para irem à Escola percorrem mais de um quilómetro pela perigosa Estrada Nacional, e o absentismo é justificado com “a necessidade de pedir, a falta de vestuário ou de comida”. “Aos meninos ciganos de Lagoa Negra valem os professores e a funcionária (de vez em quando compram bolachas e manteiga), o leite escolar que tomam quando vão às aulas, e os seis euros mensais por criança em pão e leite dados por uma instituição de solidariedade.”
O Jornal de Barcelos esteve nos dois acampamentos acompanhado pelo Presidente da Assembleia de Freguesia de Barqueiros, António Cardoso. No acampamento mais próximo de Laúndos, os ciganos vivem em barracas num ambiente degradado, miserável. A maioria dorme no chão. Têm água da rede pública, mas de vez em quando aparece a Câmara para a cortar por falta de pagamento. “Eles continuam a insistir para pagarmos… não temos dinheiro, não pagamos”.
Anseiam por “uma casinha com condições para criar os filhos, para eles terem uma vida melhor”. A maioria das famílias recebe o RSI – Rendimento Social de Inserção da Segurança Social, que é o único apoio com que contam. No acampamento próximo da Estela a situação não é melhor. “Não há luz e a água “do poço está muito suja”. Sentem mais a falta da luz porque usam velas e temem que um dia “ardam os barracos todos”.
António Cardoso diz que nos dois acampamentos vivem mais de cem pessoas, e considera que “não é aceitável ter aquelas pessoas na situação em que estão. Eles não podem ser tratados como seres abjectos”. Por isso espera que sejam tomadas medidas que ponham fim “à miséria em que vivem”.
Barcelos: o último concelho do distrito a aderir à Rede Social
Dos 14 concelhos do distrito de Braga, Barcelos foi o último a aderir ao programa Rede Social. Esta iniciativa do Instituto de Solidariedade e Segurança Social baseia-se no envolvimento de todas as instituições concelhias (públicas ou privadas), com o objectivo de intervir socialmente onde for necessário, para “combater a pobreza e exclusão social numa perspectiva de promoção do desenvolvimento social”. A Rede Social aposta “na descentralização da intervenção social, no planeamento intersectorial da intervenção social local e na responsabilização conjunta”.
Comentário
A propósito dos ciganos, um convite ao Presidente da Câmara
Paula Costa afirma que “não é fácil visitar um acampamento cigano. É-se recebido pelo perturbador cheiro a pobreza e à miséria”. “A generalidade das pessoas acha que os ciganos ou são ladrões ou traficantes de droga” e que “não há ciganos honestos”. “Afinal, os ciganos são gente igual aos não ciganos. Não há nos ciganos uma predisposição para o crime. Há entre os ciganos, como entre nós, gente séria, honesta, e gente sem escrúpulos. O que a maioria das pessoas não quer ver são as circunstâncias em que vivem os ciganos”. “Pedem por prazer? Haverá alguém que tenha gosto em estender a mão, a pedir?” E convida o Presidente da Câmara Municipal de Barcelos a visitar um dos quatro acampamentos do concelho onde vivem algumas centenas de ciganos. “E depois diga de sua justiça” conforme “a sua consciência social. Não perpetue esse silêncio avassalador, essa inacção que trata os ciganos como se eles não existissem. Eles existem.”