Diz que velório custou mais 95 euros por ser “cigano e porco”
Jornal de Notícias (20 Jul)
Diz que velório custou mais 95 euros por ser “cigano e porco”
Lisboa: João Silva afirma-se discriminado. Foi obrigado a pagar “taxa extra” na paróquia da Ajuda
João Silva (JS), morador no Bairro da Ajuda, em Lisboa, garante que foi discriminado pala sua paróquia por ser de etnia cigana. Afirma que o padre cobrou mais 95 euros para o velório da sogra, alegando que os ciganos são “violentos e porcos”. “Ouvir isto dói muito. Sou católico praticante. Fiquei sem reacção. Apeteceu-me dizer que também há padres pedófilos e que ele não tem culpa, mas sou civilizado e optei por não devolver os insultos”, desabafa JS “ainda incrédulo com as palavras que ouviu de um padre que conhece há muito tempo”. O SOS Racismo e o Centro de Estudos Ciganos prometem apresentar queixa junto da Comissão Nacional para a Igualdade e contra a Discriminação Racial do ACIDI.
No mês de Junho, o feirante precisou de fazer o funeral da sogra. “A agência funerária deu-me um preço e, duas horas depois, ligou novamente a dizer que era mais 95 euros. O funcionário foi logo muito frontal, dizendo que era por eu ser cigano.” Após o funeral, JS decidiu confrontar o padre e foi nessa altura que ouviu as palavras “violentos e porcos”.
Ao Expresso, o padre Francisco dos Santos, pároco da Ajuda, admitiu que é prática habitual da paróquia cobrar o aluguer das duas capelas mortuárias. Assume que o faz porque os ciganos “choram muito, berram, atiram-se para o chão”, além de comerem e beberem na capela, que “fica numa grande imundície”.
Francisco Monteiro (FM), Director Executivo da ONPC, admitiu ao JN que já recebeu outras denúncias. “Não são muitas mas as que existem chegam para incomodar”. Condena tais atitudes, frisando que “não são coisas que sejam admissíveis. Acima de tudo, é preciso dialogar. Há diferenças culturais que é preciso tentar entender e a Igreja, pelo seu estatuto, tem a obrigação de dialogar com as pessoas”.
Bruno Gonçalves, vice-presidente do Centro de Estudos Ciganos, sublinha que “tudo isto é muito triste e o que mais me choca é ter vindo da Igreja católica”.