Mirene, bem hajas por tudo o que fizeste por todos nós!

Mirene, partiste
mas a tua voz ainda ressoa!
Daniel Rodrigues
Os pobres ou marginalizados aproximam, obrigam a partilhar. Já tenho saudade de partilhar por estes carris! Já!…
Taciturno estava eu há dias pensando não sei bem em quê, em quem! Porventura em alguém que estava no hospital. Isso mesmo! De repente, acordo, vou mais além. Caminho, sem andar. Corro, mas as pernas não se mexem. O coração não as comportam. Ficam inertes! Tal qual! Abro a agenda de bolso para telefonar não sei bem para quem. Deparo com um nome que muito me diz. Era o da minha Mãe ( Maria da Luz) Mas a minha Mãe, que partiu para o Pai há mais de duas décadas, não podia ser. Ela nunca teria telefonada e nem sabia o que isso seria. Era analfabeta. Os pais só a deixaram ir um dia à escola de Ariz, em Terras do Demo. Abaixo da Maria da Luz estava um outro telefone, do telemóvel. Era o da Mirene. De seu nome completo Maria Irene Rodrigues. De repente o meu cansado coração estremeceu e clama: mas a Mirene já partiu há dias para o Além; e enquanto estava a cogitar fui teclando no telem. Calmamente ouço a sua voz na gravação, como tantas vezes a tinha ouvido, quando a Mirene andava com as vicentinas ou pelos acampamentos de ciganos ao lado do seu querido marido, o seu “ motorista” de serviço nessas andanças de calcorrear acampamentos- o seu querido manuel… “ Daqui fala a Mirene. Neste momento não posso atender, deixe a sua mensagem, o seu nome…”
Também desta vez deixei mensagem como as deixava quando tinha tempo de acompanhar o Casal por essas casas sem tecto, frinchas a deixarem entrar tudo, vento e sol, chuva e ciclones! E rezei: Mirene, sei-te já na Pátria dos bem aventurados, reza, aí junto do Pai por todos aqueles que continuam a trilhar os teus caminhos, os dos ciganos, os dos pobres, daqueles que não estão sequer em qualquer registo, nem no relatório do Rendimento Mínimo! Reza aí, Mirene, com o beato/ cigano Zeferino por todos aqueles que se continuam a arrastar pelos caminhos turtuosos, errantes! Mirene, são poucos os que sabem dialogar simultâneamente com a alta sociedade e com gente de barracas. De comer com ricos ou de comer mesmo nas barracas dos gitanos. Obrigado, Mirene, pelos testemunhos que me deste! Um dia voltaremos a encontrar-nos nas tendas celestiais dos ciganos, onde não haverá marginais, nem marginalizados, porque todos filhos do mesmo Pai. Continua a olhar celestialmente, pelos ciganos dos Ervideiros, das Ervosas, da Dankal, de São Bernardo, de todo o lado onde tinhas amigos ciganos. Conheciam-te à distância e a pequenada corria, corria agarrando-se às tuas vestes. De nenhum receavas o odor. E se, tal acontecesse, segredavas baixinho às mães: “cuide desta limpeza!” Olha, que muitos também, estiveram no teu funeral, ao lado de altas figuras da sociedade. E certamente ninguém teve medo ou receou algum odor incomodativo! Olha, a ciganita, Irmã Zulmira também está muito doente Pede ao Beato Zeferino também por ela. Precisamos de gente sem galões que ame estas etnias.
Que o teu exemplo de vicentina, de professora de pobres e ricos, dos ciganos, que leve muitas das tuas muitas colegas e amigas a abraçarem a missão de fazer reino cá na terra na rota dos pobres para que depois possam também ter uma santa morada lá nas alturas onde não chove e nem faz vento e muito menos há fome! O Pai sacia a todos!
Maria Irene Rodrigues, olha pelo teu zeloso e solicito marido, pelo teu Manuel, que me enlevava pela sua disponibilidade de ser “ motorista” da sua Mirene pelo caminhos dos sem tecto; reza pela tua extremosa Filha! Os dois levaste no coração. Eu sei!
Mirene, bem hajas por tudo o que fizeste por todos nós!