Expresso – 1º caderno (2 abr) – DIVERSOS

Mulheres Ciganas Universitárias

Mudança: Cada vez mais raparigas de etnia cigana estudam para lá da primária. A tradição cede à crise das feiras, que obriga a novas competências. Projeto pioneiro levou este ano 11 jovens para a universidade

Teresa Vieira (TV), 26 anos, é estudante de Sociologia, no ISCTE, em Lisboa. “Tudo normal se ela não fosse cigana. Mulher cigana não anda sozinha, não conduz, não estuda além da quarta classe. Mulher cigana casa cedo, cuida da casa, dos filhos, do marido, vai para o mercado. Mas a tradição está a mudar, devagarinho. As feiras deixaram de dar dinheiro”. “As grandes superfícies destruíram o negócio (das feiras) e os pais perceberam que tinha de estudar. O meu pai confiou em mim e eu sou 100% certinha”. A necessidade de assegurar a retidão do comportamento é a marca da educação que teve, da etnia que tem. TV orgulha-se de ser cigana, mas a tradição não se orgulha de ela estudar. “Ninguém me atira pedras, mas eu não sou a mulher ideal para ninguém, nem a nora que alguém queira”, explica. “Mesmo sendo cigana 24 horas por dia, só porque ousou sair das saias da comunidade e misturar-se com a ‘comunidade maioritária’ e ‘ser mal vista’ por isso. Sente-se diferente de um lado e do outro.”

Foi por sua vontade que levou os estudos muito para lá do habitual e agora sente o reverso da conquista. “As minhas primas e amigas estão todas casadas. Praticamente já não há rapazes solteiros (ciganos) da minha idade.” TV não equaciona casar fora da comunidade.

Entrou para a Universidade em setembro de 2015, integrada no Opré Chavalé – “Erguei-vos Jovens”, em romani – o primeiro projeto nacional de integração de jovens de etnia cigana no ensino superior. Promovido pela Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres, em parceria com a Associação Letras Nómadas, apresentou esta semana o balanço do grupo piloto: 11 jovens sub-30, seis rapazes e cinco raparigas, integrados em universidades de todo o país, terminaram todos o primeiro semestre com aproveitamento. Entre os cursos dominam a Animação Sociocultural e Serviço Social – querem ser mediadores dentro da comunidade -, mas há também Eletrónica e Automação Naval, Segurança Alimentar e Gestão de Recursos Humanos.

O quase equilíbrio de sexos é enganador, porque Portugal tem a maior disparidade de género na comunidade, quase 45% das mulheres ciganas com menos de 16 anos são analfabetas em comparação com 23% dos homens; 40% das mulheres nunca foram à escola, o que só acontece a 21% dos homens, lê-se no último estudo da Agência dos Direitos Fundamentais da UE.

Estes jovens foram “buscá-los a casa”: quem trabalha junto das comunidades os referenciou-os porque reuniam as condições – 12º ano ou mais de 23 anos e o 9º ano. Depois dois mediadores ciganos do projeto foram falar com as famílias, porque a permissão tinha que vir daí.

Olga Mariano (OM), presidente da Associação Letras Nómadas, de 66 anos, explica que “com o fim das feiras a atitude perante a educação está a mudar. Há cada vez mais consciência de que é a chave para mudar o seu futuro, e que não perdem a identidade cigana por continuarem a estudar”. Foi depois de enviuvar que OM voltou a estudar primeiro frequentando uma formação para mediadores culturais, até completar o 12º ano. “E nunca me afastei um milímetro da minha cultura. É isso que digo aos pais, que os filhos podem ser tudo aquilo que querem ser sem deixarem de ser quem são”.

No grupo piloto que se formou, TV deixou de se sentir diferente, porque já conheceu Cátia, do Algarve; a Luana, de Viana do Castelo; a Tânia, da Figueira da Foz. E o Francisco, o Benjamim, o José, o Eduardo, o Manuel e o Bruno. Ali é igual na diferença.

“O Opré Chavalé é um projeto fantástico, que quebra o ceticismo da comunidade. Mas é preciso que se prolongue, que passe o programa”, afirma Piménio Teles (PT), membro do Conselho Consultivo do Observatório das Comunidades Ciganas. Ainda não está assegurada a continuidade do projeto, que não avança sem entidades que o financiem. Os alunos têm as propinas e os transportes pagos para o primeiro ano de curso. Mas o apoio acaba aí. “Nenhum destes 11 estaria na universidade sem o projeto. Estes jovens existem, só precisam de ser incentivados”, diz PT. Já há, aliás, uma lista de candidatos em espera. O sucesso do grupo piloto e o passa-palavra dentro dos bairros acordou sonhos um pouco por todo o país. Até OM entregou a sua candidatura no ISCTE, porque se vai licenciar em Serviço Social. “É só mais uma barreira que cai! Sou cigana, uma barreira; sou mulher, outra barreira; sou viúva, outra barreira; tenho 60 anos, outra barreira. Agora vou ser universitária.” Com ela leva os filhos Jair, 35, para Psicologia, e Noel, 41, também para o Serviço Social.

No Fogueteiro, no prédio a seguir ao de OM, Teresa Amorim, 19 anos, fez outra escolha: parar de estudar porque um dia encontrou uma viúva que lhe disse que era falada. E a tradição falou mais alto. Era aluna de cincos e era já a única aluna cigana na E.B. Paulo da Gama. “O nossos futuro depende da opinião dos outros. Saí. Hoje não me faz falta. Adoro ler e escrever todos os dias, mas o sonho de cigana, o meu sonho é casar, ter filhos, ser dona de casa. E já estou a passar da idade. “A maioria das meninas ciganas ainda decide como ela.

Legenda foto ATD: O “muro da vergonha” derrubado em Beja – desenho do Movimento Internacional ATD (Ação de todos pela Dignidade) Quarto Mundo, em Carta aos amigos do mundo – Fórum por um mundo sem miséria (fev. 2015) – notícia publicada na Caravana nº 78 (jul-set 15)