Colômbia: As novas Ciganas (Anna Viñas* (AV)


Mundo Aciganado (internet) – Roma Virtual Network(16 Abr)
Colômbia: As novas Ciganas (Anna Viñas* (AV)
AV conta a história de Dalila, uma mulher cigana que vive numa contradição uma vez que ama o seu povo e as suas tradições e por isso se veste como cigana, vive como os ciganos e fala a sua língua, o romanó, mas que rompeu com a maioria dos arquétipos que limitam a mulher cigana. É engenheira industrial, trabalhou para a administração da Colômbia e o conselho de Patriarcas da sua comunidade, que é vedado às mulheres, não toma decisões sem a consultar. Afirma que “faz sempre o que lhe apetece” e que o seu objectivo é lutar pelos direitos do povo Rom.
O seu caminho para a rebelião começou aos 18 anos, quando decidiu que queria ir para a universidade, indo contra os desejos da sua família, “mais preocupada que se casasse que outra coisa”. Dalila licenciou-se graças ao dinheiro que ganhava a ler a sina às suas companheiras de estudo. “O meu pai não queria que estudasse e dizia-me que se estudasse, me tornaria “gadgé” (não cigana na expressão dos ciganos) e que na universidade se aprendem coisas feias, como a droga ou a prostituição. Assim, como poucas ciganas costumam fazer na Colômbia, não casou aos quinze anos, não ficou grávida e conseguiu tornar-se uma engenheira industrial especializada em gestão e planificação de desenvolvimento. Trabalhou em várias empresas, disfarçada de ocidental, com medo de discriminações, até chegar à função pública onde começou a trabalhar pelos direitos do seu povo. O seu empenho resultou num decreto que reconhece os ciganos como grupo étnico colombiano. “Agora já somos uma variável a ter em conta nos orçamentos”. Entre os desafios para a comunidade cigana na Colômbia, está a implantação de políticas de prevenção na saúde, a escolarização das crianças que abandonam a escola precocemente porque os seus padrões culturais não encaixam no sistema educativo homogeneizante da sociedade ocidental. Na Colômbia, 70% das crianças ciganas nunca foram à escola.
A maioria dos problemas corresponde a choques culturais, algo que Dalila experimentou na sua história de vida. Já na escola, era assinalada pelos seus costumes “estranhos” e pela sua forma de vestir. Leu bem o castelhano e tinha um sotaque estranho porque na sua família sempre se falou o romanó. Além disso, os seus colegas não entendiam porque é que não tinha casa e vivia numa tenda. Foi alvo das burlas, mas aguentou-as porque se queria formar. Além disso, para se incluir, teve que moldar-se a novos padrões de autoridade. “Eu era muito rebelde e não entendia que o professor tivesse de mandar em mim. Na comunidade só o patriarca tem autoridade sobre os demais e as crianças são sempre muito livres”: a liberdade é um dos valores muito apreciados pelos ciganos. “Não querem senhores nem patrões, não aceitam rotinas nem dependências, nem, tão pouco, querem ser escravos do tempo”.
“Nós vivemos no presente e não nos ocupamos com o passado e isso, em parte, prejudica-nos porque não exigimos justiça. Não temos rentabilizado o holocausto como os judeus”. Também não se preocupam com o futuro: daí o seu desinteresse pela prevenção ou a poupança. “Se hoje temos dinheiro gastamo-lo e partilhamo-lo com os outros” pois temos uma concepção de vida colectiva. Os ciganos são nómadas por concepção de vida, embora actualmente esta seja uma opção difícil por causa das fronteiras e, na Colômbia, devido ao conflito armado. Se a guerra gera o fenómeno da deslocação em muitas vítimas, “nós sofremos a imobilização”. Sentimo-nos sequestrados dentro de um território e isso tira-nos a qualidade de vida. Só nos resta a mobilidade mental.” “É isso que dá vida a Dalila”.
“Quando trabalhava para a administração ofereceram-me um lugar de efectiva, mas recusei. Estar num escritório não foi feito para mim.” No entanto, nunca lhe faltou emprego e por isso, é o suporte económico da sua extensa família, com 20 pessoas. “O meu pai e os meus irmãos não têm uma economia estável porque são artesãos do cobre e não vendem muito. Eu sustento-os a todos e sentem-se orgulhosos de mim e do meu trabalho”. No entanto, antes era uma mulher perseguida pelos patriarcas da comunidade e em risco de ser excluída pelo seu trabalho público em defesa dos interesses do povo cigano. “Fizeram-me vários julgamentos para me excluírem porque acusavam-me de substituir os homens. Não aceitavam que eu tivesse liderança.” A falta de representatividade das mulheres e a sua ausência nos órgãos de poder, é, para Dalila, outro dos desafios que o povo Rom deve enfrentar. “Nós temos que mudar em certas coisas, nomeadamente, no nosso acesso ao ensino superior, para ficarmos numa situação melhor”. No entanto, salienta que “isso não implica que mudemos a nossa maneira de ser.” Dalila diz que os ciganos aprenderam a ser machistas com a sociedade ocidental e não com a sua cultura. Os ciganos não querem “possuir” as mulheres (o machismo) mas respeitá-las. Dalila quer preservar a essência cigana, moldando-a aos novos tempos: começou por experimentar na sua própria vida. Mudou o seu destino como mulher cigana, estudando, planeando e investindo no seu futuro para ser autónoma e conseguiu ser escutada pelos órgãos de poder da sua comunidade. Dalila rompeu com os esquemas do povo cigano, com o objectivo de os conservar. Em si parece uma contradição, mas a vida está cheia delas.
* Jornalista que está a dar a volta ao mundo para estudar a situação da mulher nos cinco continentes.