OS CIGANOS NO HOLOCAUSTO

O TCHATCHIPEN (a verdade em Romanó), Revista Trimestral de Investigación Gitana, editada pelo Instituto Romanò de Servicios Sociales y Culturales, presidido por Juan de Dios Ramírez-Heredia, no seu nº 78 (Abr-Jun 2012 )tem um artigo de Ian Hancock “Los rromá en el Holocausto” que pela sua grande importância a Caravana vai sintetizar neste nº. O autor é prof. na Universidade do Texas (EUA) e director do programa de Estudos Ciganos e do Centro de Documentação Cigana da mesma universidade.

“Em 1933 deu-se início a um processo que pretendia fazer uma diferenciação racial entre arianos e não arianos. O objectivo que se procurava era a aniquilação final de todos os judeus e os ciganos da Europa”*.

 

Ao longo da história alemã (como infelizmente ao longo da história portuguesa, embora com menos referências ao extermínio dos ciganos NR), desde 1416, sucederam-se as perseguições, expulsões e medidas de extermínio e, já com Hitler, de esterilização dos ciganos que eram considerados como uma raça inferior e geneticamente delinquente a eliminar. Nos jogos olímpicos de Berlim, distribuíram-se panfletos a promover o anticiganismo; os ciganos tinham sido tirados da rua e encerrados numa lixeira de resíduos tóxicos. A Solução Final da Questão Cigana foi confirmada por um decreto de Himmler. De 12 a 18 de Junho de 1938 realizou-se a “semana da limpeza cigana” em que centenas de ciganos foram presos na Áustria e na Alemanha. Seguiram-se diversos decretos que visavam a erradicação de pessoas ciganas ou com sangue cigano, a sua esterilização e, finalmente, por decreto de Hitler de 27 de Setembro de 1939, a deportação de ciganos em vagões atrelados aos comboios de judeus. O primeiro genocídio deu-se no início de 1940 com 250 crianças ciganas, no campo de concentração de Buchenwald, para experimentar o gás que mais tarde foi utuilizado em Auschwitz-Birkenau. Seguiu-se a prisão e o envio a diversos campos de concentração de dezenas de milhares de ciganos, dos quais 5.000 foram assassinados em furgões de gás móveis em Kulmhof, dois terços dos quais eram crianças, mil foram fuzilados e enterrados vivos em Smolensk, em 1942,  outros foram sujeitos a experiências de sobrevivência em água do mar. Em 29 de Fevereiro de 1940 Himmler disse: “os ciganos são um problema em si mesmos. Gostaria de poder livrar-me deles por completo durante este ano, se possível”. Os assassinatos de ciganos por nazis estenderam-se à Grécia (onde por cada vítima alemã foram assassinados 50 ciganos), Sérvia (onde o Governador Militar anunciou que “a Sérvia era o único país em que o problema judeu e o problema cigano tinham sido resolvidos”), Croácia (onde entre 80.000 e 100.000 ciganos foram mortos pela polícia nazi, a maioria no campo de Jasenovac) e noutros países do Leste. Himmler chegou a pedir dados sobre a população cigana da Grã Bretanha, à espera da ocupação deste país. Em 1943 o maior contingente de ciganos polacos foram exterminados em Birkenau. Em 1944 mais de 3.000 ciganos, entre os quais muitas crianças, foram assassinados e incinerados ou gaseados em Auschwitz.

Nenhum cigano foi chamado a testemunhar pelo seu próprio povo no Julgamento de Nuremberg que começou em Outubro de 1945. “As estimativas actuais indicam que entre um milhão e um milhão e meio de ciganos morreram durante o período de 1933 e 1945. Se esta estimativa é correcta, entre 50 e 75% da totalidade da população cigana da Europa nazi terá morrido às mãos dos nazis, vítimas da política genocida por motivos raciais.” No Julgamento de Nuremberg, o ex general das SS, Ohlendorf afirmou que “nas campanhas de assassinato ‘não houve diferença entre ciganos e judeus’.“ Em 1988 o Governo da Alemanha de Leste anunciou o pagamento de indemnizações de 100 milhões de dólares aos sobreviventes judeus, mas negou-se a pagar nada aos sobreviventes ciganos. Finalmente em 12 de Abril de 1990 o Governo da Alemanha de Leste pediu desculpas pela “dor incomensurável” que o regime nacional socialista tinha infringido às sua vítimas, incluindo os ciganos.

* Herbert Heuss, De la “ciencia racial” a los campos: Los gitanos durante la Segunda Guerra Mundial. University of Hertfordshire Press, p. 27.