EDITORIAL
POLÍTICAS DE ACÇÃO AFIRMATIVA OU ESTAGNAÇÃO, ESQUECIMENTO E ENTRAVES
Numa conferência sobre novos perfis ocupacionais para os ciganos, realizada em Bruxelas no final de Setembro, uma das palestras conclusivas, a cargo do coordenador do Projecto, Júlio Vargas, da Universidade de Barcelona, teve como tema “a necessidade de políticas de acção afirmativa na Europa para melhorar a coesão social” (ver notícia neste número).
“Acção afirmativa” ou seja o oposto da estagnação, do esquecimento e dos entraves a que as “más” práticas em muitos domínios da intervenção social relativamente ao desenvolvimento da população cigana portuguesa nos têm, infelizmente, habituado.
Vejamos então: como se compreende a lentidão (deliberada?) de alguns projectos de realojamento em algumas Autarquias?
E o estatuto dos Mediadores socioculturais no Ministério da Educação? Há quantos anos não aparece ninguém que consiga resultados positivos para contrariar o fracasso de uma excelente iniciativa, a formação e a colocação de mediadores socioculturais que permitiriam às escolas ser, tendencialmente, multiculturais não na população, em que muitas já o são, mas no acolhimento e no acompanhamento das crianças de culturas minoritárias?
E a legislação sobre venda ambulante tão obsoleta quanto esquecida porque só interessa às minorias do nosso país? É incómodo mexer nessa legislação? E é para as coisas cómodas que quem governa se compromete a servir o país? E o país é país sem as suas minorias, designadamente a cigana, portuguesa há 500 anos?
Na referida conferência encorajam-se as iniciativas empresariais dos ciganos em áreas inovadoras. E o Projecto SOBREVIVER da Associação cigana Raízes Calé, no domínio da mediação sociocultural, que agoniza há longos anos nas estruturas sociais estatais?
As perspectivas da citada conferência em Bruxelas, são, felizmente uma lufada de ar bem contrária ao desfilar de factos que acabamos de fazer. Lá se disse que os benefícios das acções afirmativas nas áreas da educação e do mercado de trabalho beneficiam não apenas os grupos minoritários mas também toda a sociedade. Ou seja, a coesão social diz respeito não só aos desfavorecidos mas ao país como um todo.
Neste país estará alguém a ouvir?
Francisco Monteiro