Por um mundo sem miséria (online) (19 jun) – DIVERSOS

Mais um artigo sobre as famílias ciganas portuguesas que temos vindo a acompanhar…

Famílias ciganas derrubam “muro da vergonha” que as isolou quase uma década

Nem os protestos da Amnistia Internacional e uma queixa no Comité Europeu dos Direitos Sociais demoliram a barreira de betão erguida para “segurança” da comunidade cigana

 

“O ‘muro da vergonha’ que simbolizou, durante quase uma década, um ‘gueto’, chamado Bairro das Pedreiras, que materializava a separação da mais numerosa comunidade cigana de Beja do resto da sociedade alentejana está reduzido a escombros.” Mais de 300 pessoas, fazendo uso da persistência, foram expressando a sua revolta, ano após ano, esburacando e abrindo fendas na estrutura de betão, com tudo o que tinham à mão: martelos, ferros, pedras e paus.” “A tarefa ficou concluída há cerca de um mês e já ninguém se sente a viver num cemitério dos vivos, realça triunfante um dos residentes no bairro”.

 

Em 2006 a Câmara de Beja construiu na periferia da cidade, junto a um canil/gatil, um bairro para realojar cerca de 50 famílias ciganas que viviam em barracas. O projeto autárquico incluiu, por razões de segurança, a construção de um muro, com cerca de 100 metros de extensão e 3 metros de altura.

Só que a comunidade cigana não aceitou esta solução por veicular um gesto segregador e contou com o apoio da Igreja Católica, da Amnistia Internacional, da União Romani Portuguesa, da Caritas, e do Centro Europeu de Direitos dos Ciganos que, em 2010, apresentou uma denúncia junto do Comité Europeu dos Direitos Sociais, contra o Estado português. Mesmo assim, este movimento de solidariedade não conseguiu demover os autarcas de Beja e já em 2015, foi decidido pela comunidade cigana derrubar o que restava do muro. “Agora até já vemos a cidade” diz um morador.

Bruno Gonçalves, delegado nacional do programa Romed II, que desenvolve atividades com jovens ciganos, refere o derrube do muro como “uma grande vitória”. Prudêncio Canhoto (PC), mediador cigano, afirma: “Não queremos que as pessoas pensem que os ciganos só sabem mandar o muro abaixo”.

Uma parceria envolvendo várias entidades (Câmara de Beja, União de Freguesias do Salvador e Santa Maria, Rede Europeia Anti-Pobreza (REAP) e Centro Social Cultural e Recreativo do Bairro da Esperança), avançou com um projeto que visa melhorar as condições de vida do Bairro das Pedreiras. Júlio Silva, um dos residentes no bairro, dinamizou a comunidade para reparar os telhados das habitações enquanto se preparava outra tarefa: pintar as 50 casas ali existentes. A autarquia aprovou a verba necessária para a aquisição das tintas e as primeiras casa já começaram a ser pintadas. PC afirma: “quem mora nas casas é que as vai pintar”.

A parceria já está a tratar do próximo objetivo: arborizar o bairro e construir um parque de estacionamento para as viaturas.