Sou natural da Batalha, residente em Leiria, e pode-se dizer que praticamente nasci na Feira. Sou cigano e represento uma comunidade cigana em Portugal. É da Feira que retiro o sustento para mim e para os meus filhos.

PORTUGUÊS, CIGANO E POLÍTICO
Sou natural da Batalha, residente em Leiria, e pode-se dizer que praticamente nasci na Feira. Sou cigano e represento uma comunidade cigana em Portugal. É da Feira que retiro o sustento para mim e para os meus filhos.
Dantes era no comércio do gado que os meus avós encontravam o seu sustento. Eu faço as Feiras de Leiria, às Terças e Sábados, e recorro a Lisboa, Cascais e outras para vender a minha mercadoria.
De momento a crise está instalada em todo o país e é notória a diminuição de vendas neste tipo de feiras. É também por isso que tenho muito tempo para pensar sobre a vida política, os direitos e os deveres não só de ciganos mas de todos os grupos minoritários que vivem em Leiria e em Portugal em geral.
Quanto aos ciganos, comunidade a que eu tenho grande orgulho em pertencer, vejo que há muito medo de falar com eles e de tentar perceber os seus problemas. Não nos podemos esquecer que nós temos deveres mas também temos direitos. E é sobre isso que eu queria expor aqui algumas ideias, porque, felizmente, habitamos num país democrático e onde há liberdade de expressão.
Como é sabido, vivemos num país que tem uma constituição, que fala do direito à diferença e da não discriminação, mas que é um país que faz leis que são feitas pela maioria e para uma maioria, e que, por vezes, ignora os problemas sociais das minorias, como é o caso dos ciganos, há muito instalados em Portugal, muito antes da vinda de outras minorias e de outros imigrantes. É por isso que não podemos ser esquecidos. Somos ciganos mas somos portugueses. Que direitos temos adquirido nestes anos todos?
Quando as políticas apontam para o desvio da feira para a periferia das cidades, significa que estão a enviar os ciganos para um buraco sem fundo. Se nem mesmo dentro da cidade o negócio dá para as despesas, o que fará na periferia… E quando o negócio não dá, surge então o aumento da possibilidade de violência, furto, etc.
Portanto, não basta falar de criminalidade, fazer rusgas às casas dos ciganos, entre outras coisas, para tentar resolver problemas de criminalidade, toxicodependência, etc., como se este problema apenas existisse entre nós. É preciso dar condições às minorias, a todas as minorias, para que elas possam viver dignamente com as maiorias, para que não haja necessidade de recorrer a contrafacções, por exemplo. Nenhum pai gosta de ver o filho com necessidades. Todos os pais desejam o melhor para os seus filhos, E, já agora, é preciso que todos assumam que a questão da droga é um problema da sociedade contemporânea, muitas vezes das famílias mais ricas, e é um erro grande associar-se sempre a droga à pobreza. E, pior, associar-se a ideia de drogados aos ciganos.
continua
Dinis Sebra
Chefe da Comunidade Cigana de Leiria
(Eleito Representante português à 1ª Assembleia Geral do Fórum Europeu dos Ciganos, no Conselho da Europa, Estrasburgo, em Dezembro último)