Público (14 jan) – DIVERSOS
“Indesejados”: um retrato profundo do povo cigano na Europa
Non Grata, de Åke Ericson, é um retrato singular do povo cigano realizado em dez países europeus: “Eles sentem-se discriminados em todos os países que visitei”, diz o fotógrafo sueco.
Em agosto de 2009, em Breclav, na República Checa, Åke Ericson (AE), fotojornalista sueco, tomou conhecimento de uma história que viria a alterar o rumo da sua vida. “O município acabava de relocalizar duas famílias ciganas, após tê-las expulsado das suas casas – onde viviam há várias gerações – para que, no mesmo local, pudesse ser construído um centro comercial”. Ericson conheceu as duas famílias deslocadas, “pessoas muito gentis, amistosas”, que tiveram que ir “viver a 15 quilómetros do centro de Breclav, em casas que não dispunham de água canalizada, ou aquecimento”. O desrespeito com que foram tratados sensibilizou este fotojornalista que passou os oito anos seguintes a documentar o quotidiano deste grupo étnico minoritário em dez países europeus: Roménia, Kosovo, Sérvia, Hungria, Eslováquia, República Checa, Suécia, Suíça, França e Espanha. Em oito anos, fez 18 viagens por dez países, dando origem ao fotolivro Non Grata, publicado em 2018, e onde “pretende desmistificar e deitar por terra os preconceitos que se formaram na Europa, acerca do modo de vida dos ciganos. ‘Quero revelar a repressão e a miséria de que são vítimas, mas também retratar aqueles que vivem integrados no quotidiano europeu’”.
“Entre o povo mais a ocidente e o mais a oriente onde esteve, … manifestaram-se grandes diferenças em termos de discriminação, integração e das condições em que vivem’ Em Espanha, por exemplo, governo após governo tentou integrá-los”. “Trinta anos depois, já se dão casamentos entre roma e não-roma e a maioria das crianças já frequenta a escola pública. Também existe discriminação, mas eles estão integrados.’ Na Suécia, por exemplo, os ciganos ‘vivem em muito melhores condições’ do que no Kosovo, apesar de ainda lá existirem muitos em situações de sem abrigo”, afirma AE.
Mas a situação a Leste é muito diferente: “em Mitrovica (no Kosovo), há ciganos a viver em acampamentos montados sobre solos contaminados por chumbo. Em consequência, nesse local, as crianças nascem com malformações. O estado kosovar não presta qualquer tipo de auxílio a esta população”. AE é peremptório: “(os ciganos) vivem à margem da sociedade, sem quaisquer direitos humanos: sociais, políticos, culturais ou económicos”.
Em França, em 2010, o presidente francês Nicolas Sarkozy expulsou mais de dez mil ciganos, de nacionalidade romena e búlgara. “Apesar do escândalo que estalou no seio da Comissão e do Parlamento europeus, a medida manteve-se – mesmo que, nos anos seguintes, tenha perdido consistentemente, tempo de antena nos meios de comunicação social internacionais”. Em novembro de 2011, AE esteve nos arredores de Paris, em Saint Denis, e “assistiu ao desmantelamento de vários acampamentos – prática comum do Governo francês para combater a habitação ilegal.”
Em Zurique, Suíça, “o único retrato que incluiu em Non Grata é referente a uma mulher roma vítima de tráfico humano para exploração sexual. ‘Li sobre o assunto e decidi ir até lá. Tive sorte, porque o bordel que encontrei, onde trabalhavam mulheres ciganas, pertencia à máfia kosovar’”. Em Belgrado, na Sérvia, membros da comunidade cigana “‘vivem numa floresta, dormem, por vezes, sob temperaturas de 20 graus Celsius negativos’. Os roma que vivem na Sérvia foram expulsos do Kosovo pela comunidade albanesa, por terem tomado partido no conflito que marcou o país entre 1998 e 1999”.
“O foco de Non Grata está, sem dúvida, na região da Europa Central, e de Leste: AE passou uma parte significativa do seu tempo na Eslováquia e na Roménia, onde testemunhou os episódios mais críticos e onde a discriminação é mais evidente.”
“Na Eslováquia, AE encontrou o maior gueto cigano da Europa: Lunik IX, em Kosice. Um conjunto de edifícios construídos pelo Governo eslovaco para albergar 2500 pessoas de classe média e que é agora a residência de 7500 indivíduos de etnia cigana…. ‘Ao longo dos anos Lunik IX deteriorou-se e transformou-se num bairro de lata onde existe um escoamento de resíduos urbanos deficitário. As condições de vida são muito precárias, as casas não têm gás, água ou eletricidade’. Na Eslováquia, ter um sobrenome cigano ou viver em Lunik IX ‘é um passaporte para a pobreza e para a marginalização’.
AE procura entender o motivo pelo qual a comunidade cigana é discriminada na Europa e acredita que a génese está nas conversas que se geram no serão dos lares europeus, ‘de geração em geração’”. “E é verdade que, quando as crianças saem à rua, também veem pessoas ciganas a mendigar, o que vem confirmar a tese que lhes foi imputada; mas é um fenómeno circular”.
80% dos ciganos “que deambulam, sem rumo, pelas ruas de Estocolmo, são provenientes da Roménia e emigraram para escapar às duras condições que enfrentavam no seu país”.
‘Em janeiro de 2015, a ministra do Trabalho, Família, Proteção Social e do Idoso do Governo da Roménia, Rovana Plumb, visitou Estocolmo’ e ‘durante o encontro a ministra recusou-se a admitir que existe discriminação (contra a etnia cigana) na Roménia. Não foi capaz de assumi-lo’. Estava um dia muito frio, “Plumb recusou encontrar-se com os compatriotas ciganos no exterior’”. Para AE existe uma “relação de mal-estar estabelecida entre ciganos e não-ciganos nos vários países de Leste, onde a tensão é palpável”.
“‘A UE tem fundos direcionados para a causa da integração desta minoria que não são usados por estes países, onde a exclusão continua a ser solução’”.
AE acredita que o seu trabalho tem “o poder de mudar o rumo dos acontecimentos” e considera que a obra Non Grata “deveria ser vista pelo máximo número de pessoas”. “Eu não fiz este trabalho para mim ou por mim. Fi-lo com o coração, sim, mas pensando nas pessoas que retratei”.