O cigano acha que é melhor que o não cigano

Público (19 Fev)
O cigano acha que é melhor que o não cigano
Valorizam os mais velhos. Recusam o trabalho assalariado. São orgulhosos. Têm uma imagem negativa dos não-ciganos. Como os não-ciganos têm deles. Maria José Casa-Nova, investigadora da Universidade do Minho, estuda há anos a minoria menos querida do país.
“Orgulham-se de tratar bem como ninguém das suas crianças, dos seus idosos, dos seus doentes. Satisfazem grande parte dos desejos infantis – optam pela explicação em vez do castigo. Encaram os mais velhos como memórias vivas – cabe ao filho mais novo casar e morar com os pais. Quando um cigano é internado, a lógica de tratamento transfere-se para o hospital: a família desloca-se em peso – para o enfermo não se sentir sozinho perante a doença, perante o ‘outro’.” Estas, entre outras, são conclusões a que Maria José Casa-Nova (MJCN) chega num trabalho intitulado “Etnografia e produção de conhecimento – reflexões críticas a partir de uma investigação com ciganos portugueses”, que foi lançado em Fev em Lisboa e em Braga, e é parte do doutoramento que defendeu no Departamento de Antropologia da Universidade de Granada (Espanha).
MJCN que estuda a comunidade cigana desde 1991 e que à volta dos ciganos se criou um estatuto de desfavorecido, imagem esta que considera vir “do desconhecimento” deles. Entre 2003 e 2006 a investigadora estudou profundamente 55 agregados com mais de 190 pessoas do norte de Portugal. São a minoria menos querida dos portugueses lusos e reagem a essa rejeição, nomeadamente, através de estratégias de evitamento e/ou de submissão ou estratégias de fechamento sobre si próprio e de altivez e/ou arrogância no contacto, que são também formas de esconder a percepção da sua inferiorização.
A lei cigana, oral e ancestral, regula as suas atitudes e acções e é paralela à lei do país. Os comportamentos mais graves, que acarretam desonra ou morte, são sancionados pelos homens mais velhos, de prestígio, que enformam o tribunal cigano. O casamento é uma das práticas mais regulamentadas: amiúde, os pais combinam o casamento das suas crianças, para assegurar que os descendentes não ficam solteiros, nem casam com estranhos. Só a mulher pode “dar cabaças” (romper o compromisso). 47 dos 55 núcleos familiares estudados resultam de uniões endogâmicas – entre primos sobretudo e apenas oito são uniões exogâmicas: seis com paílhas e duas com paílhos. Tal escassês é fruto da pressão para manter a pureza da etnia. A virgindade é hipervalorizada e por isso as raparigas casam entre os 14 e os 19 anos e os rapazes entre os 15 e os 21 anos. “A mulher funciona como a força e fragilidade da comunidade, dado que nela reside o orgulho, a honra ou a desonra do homem (pai, irmão, noivo, marido)” Isto torna-a ‘refém’ da comunidade, impede-a de “trajectórias escolares prolongadas e ou de uma inserção profissional que não se constitua (como as feiras) numa extensão da esfera doméstica”. “O controlo comunitário e grupal sobre o indivíduo é uma constante quotidiana”.
A escolaridade é reduzida entre os ciganos portugueses e mais ainda entre as mulheres, mas MJCN vislumbrou sinais de mudança: a geração de 40 anos da comunidade estudada é analfabeta; a de 30 anos vai do analfabetismo ao 2º ano do 1º ciclo; a de 20 anos já vai até ao 4º ano, e MJCN captou estratégias como reprovar de propósito para continuar na escola. “A escola funciona para elas como um espaço de liberdade, como um espaço de relações inter- étnicas e de sociabilidade, que lhes está proibido fora do espaço escolar pela vigilância de que são alvo”. MJCN sublinha ainda a importância de descontruir estereótipos e construir um conhecimento efectivo e tal “só é possível na base da convivência nos mais diversos espaços de sociabilidade: do trabalho ao hospital, do jardim às associações, da segurança social à escola, ao bairro; e defende que um dos desafios actuais é “pensar a diferença, qualquer diferença, a partir da própria diferença, sem que isso implique uma inferiorização ou uma dominação do ‘outro’”.