Lojas em Beja usam sapos de barro para afastar ciganos


Público (19 Nov)
Lojas em Beja usam sapos de barro para afastar ciganos
Situação evidencia tensões com a comunidade do Bairro da Pedreiras. Pastoral reúne-se hoje para três dias de debate sobre famílias romani
O sapo é uma figura maldita para os ciganos, que associam o animal ao azar e à infelicidade.
Em Beja, onde vivem numerosas famílias ciganas no Bairro das Pedreiras, a figura daquele animal está espalhada por lojas e casas particulares, evidenciando a tensão que continua a existir naquela cidade do Baixo Alentejo.
A situação do Bairro das Pedreiras, entre outras, deve ser abordada no 37º Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos que tem lugar hoje em Beja.
O PÚBLICO encontrou exemplares de sapos em diversos locais, sobretudo lojas comerciais de Beja. O Presidente da Associação do Comércio, Serviços e Turismo do Distrito de Beja, Francisco Carriço, frisa que “o fenómeno dos sapos de barro não se circunscreve apenas ao comércio”. “Estende-se até às casas particulares e, ultimamente, o problema tem assumido alguma dimensão”. E reconhece que se recorre aos sapos “como forma de afastamento dos elementos da etnia cigana, por causa do receio de que possam ser assaltados”.
Aquele dirigente associativo condena esta atitude, dizendo que é sua convicção de que “não podem ser imputados aos ciganos” os assaltos que são praticados na cidade ou na região”. “É um mito que não deve ser alimentado, até porque não é um bom exemplo para ninguém”.
Esta situação não é exclusiva de Beja, porque já em 2004, alguns diários noticiaram o facto de muitos comerciantes no Campo Grande, em Lisboa, recorrerem aos sapos para afugentar os ciganos. E três anos depois o Jornal de Notícias dava conta de que o retrato se repetia em Marco de Canaveses. Mesmo actualmente, “no Bairro Santos (Rego), em Lisboa, há muitos moradores de origem cigana que se deparam com estas figuras bem visíveis em balcões de café”.
Questionada pelo PÚBLICO sobre esta prática em Beja, Rosário Farmhouse, Alta-Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, sublinha que “importa saber qual é o motivo” porque se recorre aos sapos, admitindo que estes “também servem de adorno” nos jardins de casas particulares. Caso contrário estamos perante actos discriminatórios”, o que reforça a necessidade de se promover “um caminho mútuo para acabar com este tipo de estereótipos”.
Vítor Marques, Presidente da União Romani não tem dúvidas de que no caso de Beja, há uma crescente presença de sapos em espaços comerciais devido à existência de um bairro de famílias ciganas e garante que estão a ser usadas como “repelentes” desses moradores “para os estigmatizar”. Vítor Marques invoca o que aconteceu em 2005, em Aveiro, onde depois de o próprio Presidente da União Romani ter aludido à superstição que os ciganos têm em relação ao sapo, durante uma entrevista numa rádio local, começaram a aparecer muitos sapos de barro e até vivos, em montras e lojas. “Pedimos na altura a intervenção do Governador Civil e boa parte dos comerciantes reconsiderou, através da associação que os representa”, frisa Vítor Marques.
José Velez, vereador da Câmara de Beja, diz que não valoriza este “mito”, e afirma que o problema não é de agora e que é uma forma de dizer que “o cigano não é bem-vindo”.