Bispo de Beja pede à comunidade católica que reveja a sua relação com os ciganos


Público (22 Nov)
Bispo de Beja pede à comunidade católica que reveja a sua relação com os ciganos
Representantes da Igreja preocupados com as atitudes discriminatórias que “varrem” toda a Europa. Muro que isola o Bairro das Pedreiras considerado “chocante”
A maioria da comunidade cigana que vive em Portugal “encontra-se marginalizada e à mercê de medidas paternalistas”, afirmou D. António Vitalino Dantas, Bispo de Beja, durante o encerramento do 37º Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos. Comentando o facto de haver lojas e casas particulares decoradas com sapos de barro para afastar os ciganos. Frei Francisco Sales Diniz (FSD), Director da ONPC, apelou à necessidade de combater esta que é “uma das maiores manifestações racistas em Portugal”. Em Beja, o recurso aos sapos evidencia as tensões sociais que a presença dos ciganos causa. As preocupações locais são porém, globais, conforme diversos participantes naquela reunião salientaram. D. António Vitalino incentivou os católicos a “cultivarem atitudes diferentes”, para combater a emergência do fenómeno do anticiganismo.
FSD levou para o debate o Documento Final do Encontro dos Directores Nacionais da Pastoral dos Ciganos da Europa, discutido e aprovado entre 2 e 4 de Março, no Vaticano, e onde se realça a necessidade de se criar uma “consciência europeia” que permita às etnias ciganas e outros grupos de itinerantes “o reafirmar da própria identidade e diversidade cultural”. O arcebispo, D. Agostino Marchetto, então Secretário do [Conselho Pontifício para a Pastoral dos Migrantes e Itinerantes], não deixou de recordar que a “maioria dos ciganos europeus vive em grande pobreza e não tem acesso a recursos fundamentais para a vida”.
Claude Dumas, padre de origem cigana e Director Nacional da Pastoral dos Ciganos de França, ao descrever a realidade na Europa actual, referiu que o espaço Schengen “acelera” o movimento migratório de diversos grupos ciganos e faz emergir a “desconfiança”.
Também a Igreja é visada nas críticas, ao lhe ser proposto “o abandono de todo o comportamento de domínio” nas relações com os ciganos. “Terão de ser eles os protagonistas da sua vida”.
Nos países do Leste europeu, à excepção da Roménia, onde grassa uma forte exclusão dos ciganos, a preocupação com a educação e o ensino das crianças tem-se revelado basilar no combate à exclusão destas comunidades. Testemunhos inseridos no Documento Final comprovam que há comunidades católicas que levam a cabo uma “exclusão explícita e declarada dos ciganos”.
Alguns presentes no encontro de Beja frisaram que este problema é transversal a sectores da Igreja portuguesa. D. António Vitalino admitiu que na Igreja portuguesa “há pastores por vezes longe do seu povo”. Apesar das recomendações expressas em todas as pastorais de ciganos, o anticiganismo persiste. Neste âmbito, uma das conclusões do 37º Encontro Nacional da Pastoral dos Ciganos considera que é urgente “repensar a pastoral em Portugal”, quebrando as “amarras com o passado”, sublinhou o Bispo de Beja, que reconheceu que a Igreja “por vezes marca passo” na luta por “uma sociedade inclusiva”.