Público (25 out) – DISCRIMINAÇÃO
Memorial ao Holocausto dos ciganos já existe mas discriminação continua
Durante muito tempo, nem sequer foi reconhecido o desejo que os nazis tinham de exterminar este povo (os ciganos NR), tal como os judeus. Hoje, continuam a lutar pelo seu direito à existência
Noticia a inauguração do monumento em homenagem aos ciganos que sofreram o Holocausto na II Guerra Mundial. “Este monumento recorda-nos um povo que durante muito tempo esteve esquecido”, referiu a chanceler alemã. Só em 1982 é que a República Federal Alemã reconheceu o genocídio de pelo menos meio milhão de ciganos nos campos de concentração nazis, pelo então presidente alemão Helmut Schmidt. Depois, só em 1997 o presidente Roman Herzog sublinhou pela primeira vez que o genocídio dos ciganos nos campos de concentração teve as mesmas motivações racistas e desejo de extermínio que moveram os nazis contra os judeus.
Os ciganos foram enviados para os campos de trabalhos forçados, a partir de 1934, tendo sido sujeitos a esterilizações forçadas, ao abrigo das leis nazis de “pureza racial”. Nos campos de morte, usavam uniformes com a letra ‘Z’ de ‘Zigeuner (cigano).
Atualmente os ciganos são 11 milhões em toda a Europa, a maior minoria europeia, que é também a minoria mais pobre, alvo de discriminação e racismo, sobretudo na Roménia, Bulgária, Hungria e Eslováquia. No discurso de homenagem às vítimas ciganas, Angela Merkel reconheceu os problemas que os ciganos continuam a enfrentar na Europa atual: “sofrem ainda hoje discriminação e rejeição, têm ainda hoje de se bater pelos seus direitos. É dever da Alemanha e da Europa apoiá-los”. Mas o artigo refere que “os jornais alemães nos seus editoriais, notavam que entre as palavras bonitas dos políticos e a realpolitik há por vezes um abismo sem uma ponte para o transpor”.
“A Alemanha, a braços com uma enorme vaga de pedidos de asilo de cidadãos dos Balcãs – a maioria deles ciganos -, não só recusa a maior parte como é um dos países da UE que está a tentar repor a obrigatoriedade de vistos para entrar na zona Schengen, aos naturais dos países balcânicos. Bélgica, França, Luxemburgo, Holanda e Suécia são os restantes países envolvidos neste esforço, além da Alemanha”. Este problema está na agenda do conselho de ministros de Justiça e Administração Interna da UE esta semana. A maioria dos que chegam à Alemanha são ciganos sérvios, dos 250 mil a 500 mil que vivem naquele país, muitas vezes à margem da sociedade. “Se a taxa de desemprego na Sérvia ronda os 25%, é ainda mais alta para os ciganos” que, fugidos a bairros de lata, vivem em barracas.
Zoran Sajikovic, membro da autarquia da cidade de Leskovac, na Sérvia, também ele cigano declara: “o objectivo deles é escapar ao inverno”. Enquanto esperam uma decisão sobre o pedido de asilo, o Estado alemão dá-lhe residência, alimentação e cerca de 350 euros por mês, bem mais do que os 160 euros que ganha na Sérvia o professor de 36 anos, Arsim Memishi, que no ano passado tentou pedir asilo na Alemanha.
A Alemanha já sinalizou a sua vontade de deixar de ser tão generosa com os pedidos de asilo da Europa de Lesta, onde o racismo contra os ciganos está em crescente ajudado pela crise económica.