Público (29 abr) – CULTURA CIGANA
Ciganos: os do culto e os do mundo
Serviço educativo da Casa da Música (CdM) estreia espetáculo com duas comunidades ciganas neste Dia Mundial da Dança. 2015 é o ano da Alemanha na CdM e o 9º Festival Música e Revolução recupera sons proibidos pelo III Reich, como a música cigana
Vitória Gonzalez, a quem os pais chamam Taís, de sete anos, adora dançar. E vai dançar na CdM, do Porto. Afirma que “as ciganas gostam muito de dançar”. “Algumas são do culto, outras são do mundo. Eu sou do mundo. Não sou baptizada”. É um detalhe importante os baptizados pela Igreja de Filadélfia só podem cantar e dançar para Deus.
Jorge Prendas (JP), coordenador do Serviço Educativo da CdM, desconhecia este constrangimento religioso quando começou a pensar neste projeto. Isabel Barros direção artística) e Jorge Queijo (direção musical) aceitaram o repto. Houve uma reunião com o pastor da Igreja Filadélfia Evangélica para discutir os limites. As adolescentes já batizadas dançam apensas canções “de Deus”, retirando-se perante canções “do mundo”. O que a coreógrafa tentou foi “conseguir que a essência da cultura cigana esteja no espetáculo de uma forma especial e com uma vertente mais contemporânea”.
JP queria há muito trabalhar com comunidades de etnia cigana. “Queria valorizar o que é genuíno nesta cultura secular e dar a uma comunidade uma oportunidade de mostrar à comunidade em geral, muitas vezes preconceituosa, que o cigano tem uma raiz cultural bastante forte e identitária que merece ser partilhada com o público que vai à CdM.” Tudo convergiu quando JP soube que 2015 seria o ano da Alemanha na CdM e que a 9ª edição do Festival Música e Revolução teria sons proibidos pelo III Reich. Os nazis não queriam ouvir cantar ou tocar as comunidades de etnia cigana que exterminaram como às judias.
A Câmara Municipal de Matosinhos e a Adeima (Associação para o Desenvolvimento Integrado de Matosinhos) fizeram a ponte com os moradores ciganos dos bairros do Seixo e da Biquinha. Nunca tinham entrado na CdM e ficaram estupefactos. Os ensaios começaram em Dezembro do ano passado, e nessa altura eram 109 ciganos a atuar.
JP refere que a “Igreja traz responsabilidades”. “O compromisso deles não é comigo, não é com a CdM, é com uma entidade suprema, como uma entidade que reconhecem como divina.”
Será a primeira vez que a cultura cigana sobe àquele palco. Há quem diga a JP que investir em grupos sociais vulneráveis não vale a pena. A esses o compositor costuma explicar que “a música é uma ferramenta de intervenção social extremamente eficaz”, que “a música pode ser um caminho para a integração”.
O cigano Sérgio González (SG) que lidera o coro da Igreja de Filadélfia do Seixo, está orgulhoso: “queremos dar a conhecer ao mundo que também há ciganos educados, que servem a Deus”. A mulher, Suzete Fonseca (SF), diz que “gostava que fosse uma porta para outros trabalhos. O cigano é uma porta fechada. Faz feiras e acabou. O cigano não é só da feira.” O casal já não trabalha em feiras como os seus pais trabalharam. SG tem o 8º ano e SF o 2º: a equipa do rendimento social de inserção está a forçá-la a fazer o 5º.
“Uso calças, mini saia, fato de banho, mas há coisas que não quero mudar” diz SF. A começar pela valorização da virgindade das raparigas até ao casamento. “ A minha filha ainda é pequenina. Já peço a Deus que ponha juízo na cabeça dela. Quero que ela se guarde para um dia me dar a alegria que eu dei à minha mãe, a alegria de ter uma filha honrada, que não anda na boca do povo.”