Público (30 abr) – DIVERSOS

Igualdade: os ciganos portugueses estão a preparar-se para entrar na política

Academia de Política das Comunidades Ciganas, organizada pelo Conselho da Europa com o apoio da Associação Letras Nómadas, junta cerca de 30 homens e mulheres de etnia cigana

 

Bruno Gonçalves (BG) foi eleito pelo Bloco de Esquerda (BE) para a Assembleia de Freguesia de Buarcos e São Julião, na Figueira da Foz. Há pouquíssimos ciganos na política portuguesa.

 

Por isso, o Conselho da Europa aliou-se à Associação Letras Nómadas para organizar a Academia da Política: um processo de formação para impulsionar a participação. Em dezembro de 2017, realizaram uma sessão na Figueira da Foz, e, em abril, realizaram outra em Torres Vedras, estando prevista outra em outubro, em Viseu. Estas sessões são espaços de reflexão estratégica que junta cerca de 30 homens e mulheres de norte a sul do país, com alguma notoriedade no seio das suas comunidades e com muita vontade de participar. O PS e o BE mostraram mais disponibilidade para partilhar experiências e reflexões. Além de oradores com experiência política (outros partidos serão convidados), o programa contém ativistas e académicos conhecedores de temas considerados fundamentais para a integração das pessoas ciganas, como a habitação ou a educação.

BG admite que “sabemos que nem todos vão aproveitar”; “se tivermos aqui quatro ou cinco que se possam aproximar de partidos e fazer parte das listas, já será uma grande vitória”. Recorda que houve vários candidatos nas últimas eleições autárquicas e pelo menos 20 ciganos a trabalhar nas mesas de voto. “Isso chama para a participação”. E está convencido de que o voto cigano, organizado, foi determinante nos resultados eleitorais de Beja e Moura, onde as câmaras passaram do PCP para o PS.

Espera-se que a existência desta academia, por si só, possa levar os vários partidos a pensar na possibilidade de incluir ciganos nas suas listas.  Marcos Andrade, do Conselho da Europa, diz que não se trata apenas de “os ciganos serem mais uns a entrar na guerra das listas”, mas de “entrarem na guerra das ideias”. José Manuel Pureza, deputado eleito pelo BE, diz que “a diversidade não é uma operação de cosmética”.

BG refere que “o tempo é de mudança no seio dos ciganos portugueses” e refere a “geração solitária” que tem aberto “caminho no ativismo”, a “geração solidária” que está a abrir caminho no ensino superior e “a “geração solitária” que se prepara para abrir caminho na política”, apesar de reconhecer que não é fácil ser-se diferente. A sua entrada na Assembleia de Freguesia não tem servido para provocar as mudanças que gostaria na sua comunidade. “A grande mudança é perceberem que há um cigano que tem consciência política. Se calhar quebra alguns estereótipos. Alguns achavam que eu ia ser instrumentalizado pelo próprio partido. Isso não acontece. Sigo a corrente do partido, mas tenho a minha voz”.

“É um momento muito bom”, comenta Rosa Monteiro, secretária de Estado para a Cidadania e a Igualdade, que esteve presente em Torres Vedras. “Começam a emergir resultados muito positivos de capacitação das próprias pessoas ciganas para se organizarem. Estamos num ponto que temos de aproveitar e de potenciar, para verter em ação política”.