Público (7dez) – DIVERSOS
A diáspora dos ciganos começou há 1500 anos no Noroeste da Índia – Ana Gerschenfeld
Um estudo sobre o ADN das diversas populações ciganas espalhadas por todo o continente europeu prova que todas têm em comum uma única população ancestral. Os ciganos búlgaros são o grupo geneticamente mais próximo da população ancestral. Os ciganos que são cerca de 11 milhões, não possuem registos escritos da sua história nem das suas andanças pelo mundo. Isto levou um grupo de geneticistas de 15 países europeus, incluindo Portugal, a tentar determinar, através de uma análise ao ADN das várias comunidades ciganas, a origem e o percurso geográfico da diáspora cigana.
Os resultados publicados online na revista Current Biology, confirmam que, apesar das grandes diferenças culturais, religiosas e linguísticas que existem entre as diversas comunidades ciganas que hoje residem nos países europeus, os antepassados de todos os ciganos vieram do mesmo sítio. Os cientistas consideram a história demográfica dos ciganos, “rica e complexa”; o estudo permite estimar a data em que os ciganos saíram do seu “berço” genético. Uma análise global de 152 genomas provenientes das comunidades ciganas de 13 países, foram comparados com os genomas de diversas outras populações, nomeadamente de europeus não ciganos, para remontar até ao ponto geográfico de origem dos antepassados dos ciganos atuais e seguir-lhes depois o rasto ao longo do tempo.
Leonor Gusmão (LG), do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto é co-autora portuguesa do estudo. Concluiu-se que tudo começou no Noroeste da Índia, há uns 1500 anos. Os ciganos chegados à Europa via Balcãs (mais precisamente à Bulgária), começaram há cerca de 900 anos a espalhar-se por todo o continente, até à Península Ibérica e ao País de Gales, misturando-se, ainda que de forma limitada, com as populações autóctones que iam encontrando.
Os ciganos estão há mais tempo em Portugal que os portugueses no Brasil.
Segundo LG, os ciganos terão chegado a Portugal em 1462; apesar de serem “um grupo extremamente interessante”, têm sido esquecidos pelos geneticistas das populações. LG refere que, segundo o estudo, a diáspora cigana terá sido o resultado de migrações sucessivas de grupos muito pequenos, quase de grupos familiares. Isso fez com que as populações se diferenciassem rapidamente umas das outras do ponto de vista genético. “Como eram poucos indivíduos, nunca representavam totalmente a população de onde tinham saído”; daí que tenham surgido tantas diferenças “entre as populações ciganas a todos os níveis, em tão pouco tempo”. O estudo permitiu ainda descartar várias hipóteses que existiam como a de que “os ciganos teriam chegado à Península Ibérica via Norte de África”:os cientistas não encontraram agora qualquer indício genético que permita sustentar essa hipótese.