EDITORIAL
Reconhecer o passado, descobrir os porquês
Tantas vezes as pessoas têm tendência a queixar-se de que a cultura cigana se fecha sobre si própria relativamente à cultura envolvente. Terminámos a Quaresma, vivemos já (quando estas linhas se escrevem) as alegrias de o Pai ter ressuscitado Jesus da morte que os pecados da humanidade Lhe deram. É bom reflectir um pouco sobre a história, é tempo para metermos a mão na consciência colectiva.
Quem não se defende, quem não se fecha, quem não se torna desconfiado e agressivo quando é, sistematicamente, discriminado, perseguido, excluído, deportado, castigado, chacinado, etc. etc. etc.? Costuma dizer-se que quem não se sente não é filho de boa gente. Os ciganos têm, certamente, uma origem de boa gente, algures no Kerala no Norte da Índia. Ainda hoje, ao fim de cerca de um milénio de agruras, eles mantêm a postura de boa gente que as suas origens neles imprimiram.
No, a todos os títulos, notável documento que a Santa Sé, na sequência do V Congresso Mundial da Pastoral dos Ciganos, está a preparar para difundir em toda a Igreja, sobre a etnia cigana e as suas relações com a sociedade europeia e com a Igreja, este aspecto da má consciência de tantas comunidades cristãs, ao longo da história, sem excluir o presente, no seu não acolhimento das populações ciganas, é meridianamente focado.
Examinemos, pois, a nossa consciência colectiva. Tentemos, então, compreender os porquês e, melhor ainda, façamos, como o Papa já fez, várias vezes, mea culpa, e tentemos começar a compreender os nossos irmãos ciganos, por dentro, não pelas aparências, nos seus corações feridos por tantos maus tratos nossos ou dos que nos precederam e então o sentimento de amizade por um irmão que veio de tão longe e que necessita do nosso acolhimento talvez comece a despertar e uma verdadeira Páscoa despontará na nossa terra.
Francisco Monteiro