Revista 2 do Público (7 out) – ESCOLARIZAÇÃO

Dar a cara

Mirna Montenegro

Na década de 1990, criou o projeto Nómada para levar o ensino às crianças ciganas. Hoje, critica “o sistema” que as torna “amargas pelo insucesso”

“O ‘sistema’está feito para matar as pessoas, está a matar a criatividade, a matar a sensibilidade, a matar os sonhos. É um ‘bulldozer’”.

 

“Educadora de Infância há 32 anos, 20 deles a navegar entre as ilhas da cultura cigana em Portugal”, Mirna Montenegro (MM) “prepara o doutoramento em Educação, com base na experiência do projecto Nómada que lançou em 1994 no âmbito do Instituto das Comunidades Educativas (ICE).” MM recorda que começou a lidar com os ciganos ainda antes do “Rendimento Mínimo Garantido, em que os ciganos ‘eram invisíveis’”. “A ideia era ‘trabalhar na margem’ do sistema educativo. Ir aos acampamentos, aos mercados, ao coração das famílias ciganas de Setúbal.” MM começou a lidar com os ciganos no início da década de 1990, no Bairro da Boa Vista, em Lisboa. A ausência de preconceitos fez com que em 1992, já no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, se apaixone pelos miúdos africanos e ciganos que não cabiam todos na mesma sala; MM, acompanhada pelo livro de Olímpio Nunes, O Povo Cigano, “a bíblia de qualquer antropólogo naqueles tempos”, deixou a porta sempre aberta e colocou “lá fora um gravador com música e punha as mesas, as cadeiras e os jogos no pátio”, para que “o aborrecimento não conquistasse a eterna luta contra o interesse e a curiosidade, no âmbito de um projeto de animação infantil e comunitário existente na altura”.

Em 1994 cria o projeto Nómada, mas 18 anos depois afirma-se revoltada. O projeto Nómada foi concebido como “um dispositivo e instrumento processual de intervenção social visando concretizar, ao mesmo tempo, princípios metodológicos de ação social e educativa assentes em afetos e conceitos”. MM traduz: “as professoras do projeto Nómada aprenderam isso quando foram para os mercados, quando trabalharam no não formal e no informal. Quando viram o que é uma família quando não está na escola, quando viram o que é educação familiar, o que é a socialização familiar. Quando viram que os ciganos num mercado são capazes de estar sentados uma hora a ouvir uma história sem se chatearem. Numa sala de aula, a gente não os consegue ter dez minutos. Porquê?” “A ideia era mergulhar na comunidade cigana e perceber-lhe os contornos. Sair da sala de aula para voltar a entrar nela pelos olhos ‘do outro’”.

Agora “são poucas as educadoras que conseguem trabalhar na margem. “…Lidamos com os sentimentos, com pessoas, com tabus e às vezes uma palavra pode desmanchar um trabalho de dois ou três anos”. “Madrinha de dois ciganos, convidada para 18 casamentos”, MM diz que o segredo é “‘não mostrar medo’ e não fechar a fronteira”. MM “hoje colabora com o ICE, no âmbito do processo Nómada, como consultora e metodóloga, e espera que a chamem para defender o doutoramento… sobre as mudanças na comunidade cigana desde o 25 de abril de 1974. Dos 20 anos de convivência, fica-lhe uma certeza, que é também uma crítica: ‘Nós não sabemos valorizar a parte positiva da cultura deles. (…) Eles sabem mais de nós do que nós deles e nós não queremos saber deles porque não sabemos ler nas entrelinhas.’”