O golpe da família cigana (por António José Vilela)


Sábado (24 Mar)
O golpe da família cigana (por António José Vilela)
Urinavam nos elevadores e deixavam dejectos nas casas que iam comprar. Os vendedores pagavam para se livrarem deles – no total foram 450 mil euros.
Um rapaz apresentava-se num Volvo descapotável. O pai, também aprumado, ia numa outra viatura de luxo, com o objectivo de impressionar o vendedor de andares da urbanização da Quinta do Bom Nome, na Pontinha, Lisboa. O único problema era que o filho precisava de casa com urgência; o pai dava um ‘sinal’ de 60 mil euros para garantir o negócio e a casa podia ser ocupada mesmo antes de se fazer a escritura de compra e venda. O imóvel é ocupado no dia seguinte pelo pai, a mãe e o filho, altura em que o vendedor repara que as vestes elegantes tinham desaparecido e os carros de luxo substituídos por furgões e rulotes que deixaram três casais e seis crianças à porta do prédio.
Nos dias seguintes, a família cigana pendurou colunas de aparelhagem no parapeito das janelas, com música aos berros; na pequena varanda havia fumarada, o lixo era deixado no elevador e o cheiro a urina invadia as partes comuns do edifício. Os miúdos estoiravam as portas do apartamento e da rua, os motores dos furgões não paravam de ser experimentados e, de dentro do apartamento, ouvia-se o som estridente de ferro a bater no inox da cozinha. À noite os furgões arrancavam com as famílias para voltar no dia seguinte.
Os poucos proprietários desesperavam e o vendedor também porque ninguém lhe compraria o resto dos apartamentos. Em desespero, propôs um novo negócio: a família cigana aceitou a devolução do sinal de 60 mil euros e uma indemnização de 77.500 euros pela rescisão do contrato e o abandono imediato do apartamento.
Em Fevereiro passado, quase seis anos depois, o Ministério Público (MP) acusou os três ciganos de co-autoria em oito crimes de burla qualificada – seis na forma consumada e dois na forma tentada. Segundo o despacho do MP, a família terá ganho um total de mais de 450 mil euros através de uma série de planos semelhantes. A situação ter-se-á repetido quando algum tempo depois, a família avançou com 75.000 euros para sinalizar um andar no Parque das Nações, em Lisboa. O esquema foi igual ao anterior e “a situação só acalmou quando lhe devolveram os 75 mil euros do sinal e lhe passaram também um cheque de outros 75 mil. A fasquia ia subindo e em Vila Nova de Gaia a família terá avançado com um depósito de 100 mil euros.