Tabu (31 mai)

Capa: Sapos, o tabu da etnia cigana

Sapos para que vos quero

Estão em todo o lado: restaurantes, galerias, lojas de roupa e de ouro. Há comerciantes que não abdicam e os ter à porta. Acreditam que os ciganos fogem dos sapos como o diabo da cruz. Mas os mais novos fazem troça da superstição. Um empresário já foi repreendido e teve de retirar o adereço

 

 

Num restaurante perto de Alcântara, Lisboa, um empresário diz que tem sete sapos no estabelecimento porque “ouvi dizer que os ciganos não gostam de sapos, dá-lhes azar”. Conta que tudo começou por causa de uma festa de passagem de ano, quando um grupo de ciganos lhe causou problemas. E refere que: “Chamar a polícia também não resolve o problema. «Não os podem obrigar a pagar. Identificam-nos e depois dizem-nos que temos seis meses para apresentar queixa».

Mirna Montenegro (MM), investigadora do Instituto das Comunidades Educativas, afirma que “este animal está associado a rituais de bruxaria que aconteciam na Idade Média. E a crença foi passando de geração em geração”. “Além de má sorte nos negócios, o sapo simboliza também ‘contrários’ , isto é, conflitos entre famílias”. E acrescenta que este assunto “é de tal maneira “tabu” que muitos ciganos recusam pronunciar a palavra”.

“Às vezes tenho dificuldade em falar da internet e usar a expressão ‘sapo.pt’. Só isso causa-lhes muita repulsa”, atesta Francisco Monteiro, Diretor Executivo da Obra Nacional da Pastoral dos Ciganos.

Em Alvalade, Lisboa, muitos comerciantes em vez de um polícia, preferem ter um sapo plantado à porta. A proprietária de uma loja conta que “as mulheres costumavam entrar com os filhos, os miúdos metiam-se atrás dos balcões e roubavam os cintos. Elas tiravam as malas e punham-nas debaixo das saias. E enganavam-nos com os trocos”. Mas MM declara que “só os ciganos mais idosos, sem instrução e ostracizados é que alimentam esta crendice, à semelhança de muitos não ciganos que vivem sobretudo no meio rural”.

Mesmo assim, Bruno Gonçalves (BG), vice presidente do Centro de Estudos Ciganos, considera “xenófobo e racista” o hábito de recorrer a objectos para inibir a entrada de pessoas em espaços públicos. E acrescenta que “por muito que me seja indiferente, isto deve ser denunciado”. No ano passado apresentou mesmo queixa ao Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural (ACIDI) contra o dono de uma cervejaria de Coimbra onde existia um grande sapo de barro “para afugentar ciganos maus”. O seu comportamento foi considerado “de índole racista” pela Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial, que evocou a lei do combate à discriminação. Rosário Farmhouse, alta comissária, admoestou o empresário e obrigou-o a retirar o sapo do restaurante. E refere que “é necessário apurar em cada situação se há intuitos discriminatórios por trás da colocação dos sapos”.