Público (23 out.)
O público em Mitrovica(capa)
Ninguém quer a família de Leonarda
Sem pátria (Fábio Monteiro, Mitrovica)
A história da adolescente Leonarda e da família Dibrani não é original, mas tornou-se exemplar. Estereotipados e excluídos, membros da etnia cigana enfrentam problemas tanto em França como no Kosovo.
O artigo conta a história de Leonarda Dibrani, estudante de 15 anos que a polícia francesa foi buscar a uma excursão da escola, para a expulsar do país e enviar para o Kosovo, juntamente com o resto da família, que estava em França em situação igual há quase cinco anos. O Público foi visitar esta família ao Kosovo. O Governo daquele país afirmou que é responsável por aquela família e que estão a pagar-lhe a renda da casa onde vivem com mais quatro famílias. “Para um agregado de sete pessoas, existem dois quartos”. O Alto Comissariado da ONU para os Refugiados registou a família Dibrani. “Não sabem a língua, não têm emprego e o ministério só lhes vai conceder subsídio durante 11 meses”.
Só o pai de Leonarda é kosovar. A mãe é kosovar, mas nasceu em Itália, tal como todos os seus filhos, à excepção do mais novo; Leonarda fala francês.
Um inquérito de opinião revelou que 93% da população francesa acha que a comunidade cigana “não se quer integrar”. Mas, para Leonarda, isto nãose aplica ao seu caso.
O pai, Resat Dibrani, reconhece que mentiu às autoridades francesas, porque pensou que “assim fosse mais fácil conseguir asilo para a sua família em França”. Mesmo depois de ter sido expulso, Resat mantém uma boa imagem da França. “Nunca tivemos problemas por sermos ciganos. Sempre tivemos muita liberdade”.
“Na minha escola tínhamos franceses, ingleses, portugueses, espanhóis, … nunca ninguém se interessou que eu fosse cigana”, refere Leonarda que declara sentir saudades dos seus amigos.
Depois de François Hollande ter oferecido a possibilidade de regressar só ela a França, Leonarda afirma que as coisas não melhoraram. “Não é justo, eu só tenho 15 anos. Se tivesse 18 ou 20 anos, talvez, mas assim é muito injusto. Eu ainda sou pequena”. E acrescenta: “Não vou voltar sem a minha família”.
Em relação ao futuro afirma “quero ser advogada para conseguir ajudar pessoas na minha comunidade. Em França, é claro”.
Os Dibrani foram expulsos de França, mas isso não quer dizer que o Kosovo seja mais tolerante ou inclusivo para com a etnia cigana. Por exemplo, uma família cigana deslocada, durante o período do conflito 1998-99, esteve alojada num campo de refugiados, no norte de Mitrovica, que tinha sido construído no aterro do que foi uma grande exploração mineira. Foi denunciado que quem ali vivia tinha as maiores taxas de intoxicação por chumbo do mundo. Foram precisos 14 anos e muitas queixas às Nações Unidas para serem retirados dali. As principais etnias do Kosovo são: albanesa, sérvia, cigana, turca, bósnia e gorani. A minoria cigana é a menos integrada.